O homem que matou Liberty Valance

“A fundação da sociedade ordeira não teve, ao contrário do que se pensa, origem no exemplar representante da lei. O verdadeiro herói fundador permaneceu desconhecido. Em sua substituição ficou a lenda.

Os westerns são provavelmente os filmes em que as questões políticas da lei, da autoridade e do que constitui uma comunidade se encontram melhor expressas. A razão simples e óbvia disto é que nada se encontra, nesses domínios, adquirido, e tudo está em processo de constituição. Os personagens, nos grandes westerns, representam as forças ambíguas e contraditórias que chocam entre si no processo da construção da comunidade política. Um óptimo pequeno livro do filósofo americano Robert Pippin (Hollywood Westerns and American Myth) explora este óbvio para lá do óbvio, com grande subtileza e sensibilidade, a partir de três grandes filmes: Red River, de Howard Hawks, e The Searchers e The Man Who Shot Liberty Valance, ambos de John Ford. Revi recentemente este último, e não me custa nada concordar com o que Pippin diz, que é em muito semelhante ao que vou escrever. Não sem alguma má-consciência, devo dizer. A grandeza do filme aconselha a não o reduzirmos a nenhum dos seus muitos planos, mesmo que o plano seja claramente essencial.

A história é relativamente simples de contar. Um velho senador, Ransom Stoddard (Jimmy Stewart), regressa com a sua mulher, Hallie (Vera Miles), a uma terra onde ambos viveram no passado, Shinbone, para assistir ao funeral de um velho amigo, Tom Doniphon (John Wayne). Pouco depois de saírem do comboio, Stoddard é entrevistado pelo jornal local, que não quer perder a oportunidade de ouvir a grande personagem. Começa então um longo flashback, que dura praticamente todo o filme, em que é narrado o conflito entre Stoddard e o pistoleiro Liberty Valance (Lee Marvin), cuja morte em duelo com Stoddard, então um jovem advogado acabado de chegar à terra, proporcionou o início da sua celebridade e da sua gloriosa carreira política e antecedeu o seu casamento com Hallie. Finda a entrevista, e depois de um último olhar ao caixão de Tom (de facto, não assistem ao funeral), Stoddard e Hallie retornam a Washington, ambos concordando, no comboio, em passarem os últimos anos das suas vidas em Shinbone, onde está o seu coração.

O essencial está, é claro, no flashback, que descreve uma situação muito próxima daquilo que os filósofos chamam “estado de natureza”, onde a lei e a autoridade são, no mínimo, precárias e onde o xerife, Link Appleyard (o magnífico Andy Devine), treme como varas verdes ao simples som da voz de Liberty Valance. Nessa espécie de estado de natureza, três figuras são centrais: Liberty Valance, que representa o estado de natureza na sua mais pura dimensão de violência, Stoddard, que emblematiza as forças que visam a constituição de uma comunidade política ordeira – e Tom Doniphon, o individualista que tem um pé em cada uma das ordens que se opõem. Além de Hallie, a filha de emigrantes suecos por quem Tom se encontra apaixonado e com quem pretende casar. A relação entre Tom Doniphon e Hallie é um outro aspecto do filme claramente central. A troca de Tom por Stoddard por parte de Hallie é, também ela, uma manifestação do abandono do estado de natureza – um abandono que é, neste caso, uma perda grave tanto para Tom como para ela, uma evidência que percorre o filme de uma ponta a outra.

Stoddard, que Tom trata por “Peregrino”, é então a figura da constituição de uma sociedade política ordeira. Cruelmente sovado por Liberty Valance aquando da sua chegada, numa diligência, a Shinbone, rapidamente procura instruir os habitantes no império da lei. Munido dos seus livros, dá aulas sobre a Constituição, colabora com Peabody, o proprietário do jornal local, o Shinbone Star, e ensina Hallie a ler e a escrever. De uma indiscutível coragem pessoal, é o perfeito representante do estado civil a vir. Pretende, por assim dizer, transformar o deserto num jardim. E, na mais simbólica imagem do filme, substituir as rosas de cacto que Tom oferece a Hallie por “rosas reais”. O duelo vitorioso com Liberty Valance realiza na perfeição a figura do herói civilizador.

Acontece, no entanto – e isso é revelado por um flashback de Tom Doniphon dentro do flashback de Stoddard na sua entrevista aos jornalistas locais -, que quem verdadeiramente matou Liberty Valance não foi Stoddard, inábil com as armas, mas Tom Doniphon, que, avisado por Hallie do duelo, dispara, sem por ninguém, excepto pelo seu criado Pompey (Woody Strode), ser visto, ao mesmo tempo que Stoddard mas acertando no alvo. Tom não o revela a ninguém, lamentando-se por ter chegado demasiado tarde, até, por amor de Hallie, que já perdera definitivamente para Stoddard, contar a este como tudo se passou, para que ele possa prosseguir a sua carreira política sem o peso na consciência de ter morto um homem, algo de incompatível com a figura de um impecável representante da civilização. You talk too much, think too much. Besides, you didn’t kill Liberty Valance. Quem o matara fora ele. Cold-blooded murder. But I can live with it. Hallie’s happy, diz o terrível rosto de Wayne,

Fernando Gil, nesse grande livro de filosofia que é A convicção, distingue dois conceitos: fundação e fundamento. A fundação é o movimento que instaura uma nova ordem, em política, no conhecimento e noutros domínios. O fundamento é a versão petrificada, mítica, do gesto fundador, que no essencial o recalca e oculta. Em O homem que matou Liberty Valance temos um perfeito exemplo disso. A fundação da sociedade ordeira não teve, ao contrário do que todos pensam, origem no exemplar representante da lei. A fundação, representada pela morte do pistoleiro Liberty Valance, deu-se pela acção de Tom Doniphon, o homem que não se interessava por projectos políticos, mas apenas por um projecto pessoal: casar com Hallie. O verdadeiro herói fundador permaneceu desconhecido. Em sua substituição ficou a lenda, transformada em fundamento da civilização ordeira. Nada é bom demais para o homem que matou Liberty Valance, diz o empregado de comboio a Stoddard, no fim do filme.

É verdade que Stoddard conta a verdadeira história aos jornalistas. Mas a célebre reposta do director do jornal, recusando publicar essa parte do relato (This is the West, Sir. When the legend becomes fact, print the legend), deixa-o, no fundo, satisfeito. A libertação obtida pela revelação da verdade conjuga-se com a satisfação de saber que ela permanecerá secreta e não noticiada. É de resto duvidoso que a sua mulher, Halley, saiba verdadeiramente o que se passou realmente, o passado escondido dentro do passado. A fundação continuará ocultada pelo fundamento. Tom Doniphon, esquecido de quase todos, deverá assim continuar. E essa ocultação é provavelmente necessária para a criação da comunidade política legal e democrática – é o que o filme parece indicar.

Mas, subterraneamente a essa ficção, permanecem o deserto e as rosas do cacto que Hallie deposita sobre o caixão de Wayne. A civilização das “rosas reais”, do jardim em que Shinbone se tornou, não apaga nunca completamente o mais profundo. “O deserto é o mesmo”, diz o antigo xerife Link a Hallie. Hallie sabe-o e Stoddard provavelmente suspeita-o, como suspeita que o verdadeiro amor de Hallie era Tom, o sacrificado da civilização. Todos nós, se nos atrevermos a viajar um pouco fora dos costumes bem-pensantes, o suspeitamos.”

Paulo Tunhas, Observador, 20 abril 2017

Mais uma fraude financeira?

“A fraude não está em poucos euros pagarem muitas dívidas. A fraude está em se emitir divida, soberana ou particular, que não se pode, ou não se pretende, pagar.

Analisem bem e vejam como é possível! Imaginem que um casal chega a um hotel da vossa terra e pergunta quanto custa um quarto para o fim de semana. O rececionista responde:
– 100 euros pelos 2 dias.

– Muito bem, responde o cavalheiro. Mas gostaríamos de conhecer as vossas instalações antes de reservarmos. O quarto, a piscina, o restaurante…
– Não há problema, responde o rececionista. Os senhores deixam uma caução de 100 euros, levam a chave e podem visitar as nossas instalações à vontade. Se não gostarem nós devolvemos o dinheiro.
– Combinado, disse o casal.
Deixaram uma nota de 100 euros e foram visitar o hotel. Acontece que:

O rececionista devia 100 euros à mercearia do lado e foi a correr pagar a dívida.
O merceeiro devia 100 euros na sapataria e foi a correr pagar a dívida.
O sapateiro devia 100 euros no talho e foi a correr pagar a dívida.
O talhante devia 100 euros à agência de viagens e foi a correr pagar a dívida.
O dono da agência devia 100 euros ao hotel e foi a correr pagar a dívida…
Nisto o casal completou a visita e informou que afinal não vai ficar no hotel.
– Não há problema. Tal como lhe disse, aqui tem o seu dinheiro, devolveu o rececionista.
Conclusão: Toda a gente pagou a quem devia… sem dinheiro nenhum. O casal levou os 100 euros que pagaram todas as 5 dívidas no valor total de 500 euros. Ponham aqui os olhos e percebam que todo o sistema financeiro pode ser uma fraude. Zero euros pagaram 500 em dívida. E podíamos continuar indefinidamente.

Este conto popular, que faz rondas na internet, faz uma descrição esquemática, mas correta, da economia. Não obstante, tira a conclusão errada. Não, o sistema financeiro, tal como descrito, não é uma fraude.

Uma das ideias centrais que deste conto se deve tirar é que o crédito permite realizar transações. Transações que são elemento fundamental da vida económica. Foi o crédito que permitiu ao talhante comprar um bilhete de avião à agência de viagens, e foi o crédito que permitiu ao sapateiro vender sapatos ao merceeiro. Tal como nesta aldeia, não só a economia nacional, mas também a global, são sustentadas pelo crédito e sem ele implodiriam: hoje quase tudo é transacionado a crédito. O que é crédito? Crédito é a aceitação de uma promessa de ressarcimento futuro.

Aqui as palavras chaves são promessa e aceitação. Para o sapateiro poder levar os bifes para casa necessitou de fazer uma promessa de compensação futura e bastou que o talhante a aceitasse. Para haver crédito é preciso haver confiança entre duas pessoas. Neste sentido, transações a crédito, porque implicam um relacionamento estável e de confiança mútuo, revestem-se de um carácter mais humano do que aquelas que são liquidadas a pronto e não requerem que as duas partes voltem ao contacto. Por alguma razão ninguém vende droga nem armamento a crédito. Por alguma razão, aqueles que tiveram a experiência de comprar numa mercearia das antigas, daquelas que davam crédito, consideram que a experiência era humanamente mais rica que ir às compras numa grande superfície. Por alguma razão ninguém que tencione vender gato por lebre, ou de outro modo enganar o parceiro, dá crédito.

Repare-se também que a economia da aldeia funciona bem sem a nota de 100 euros. O que o aparecimento da nota do Banco Central Europeu (BCE) provocou neste conto foi a liquidação dos cinco créditos. Será que a nota era necessária para a liquidação destes créditos? Não! Outros mecanismos teriam realizado o mesmo efeito. Um poderia ter sido a existência, na aldeia, de uma câmara de compensação; outro poderia ter sido a emissão de uma nota de dívida por um dos cinco comerciantes que fosse aceite por todos. Suponhamos que era o homem do hotel quem tinha mais crédito na aldeia, isto é, quem inspirava mais confiança a todos os outros: a sua nota quando recebida pelo merceeiro seria por este transmitida ao sapateiro para liquidar a sua dívida, que a passaria ao homem do talho, este ao dono da agência, e por fim seria usada por este último para liquidar a sua obrigação para com o hoteleiro. Também nesta situação o que é central é a confiança que o rececionista tem entre todos os seus concidadãos.

Será de frisar que a nota emitida pelo rececionista teria exatamente o mesmo efeito que a nota do BCE: liquida as cinco dívidas e desaparece. Mas será também de ter presente que as notas do BCE só são aceites enquanto este gozar de crédito, isto é, inspirar confiança. Uma confiança de grau igual ou superior à que o rececionista goza na aldeia.

De notar ainda que a nota de 100 euros não cumpre no conto nenhuma das funções usualmente exigidas para algo ser considerado moeda: meio de troca, unidade de conta, e reserva de valor. De facto não foi a nota do BCE que permitiu o sapateiro levar bifes para casa: foi a sua promessa de compensação futura. Não foi a nota de 100 euros que serviu de unidade de conta, ou padrão de valor, na transação; a unidade de conta foi antes o Euro, medida abstrata, não a nota, e poderia até ter sido outra medida, o Escudo por exemplo. A história monetária fornece-nos muitos casos em que assim acontecia. Para referir apenas um, note-se que durante muitos séculos após a morte de Carlos Magno quase todos os europeus usaram como unidade de conta a libra de prata carolíngia apesar do Magno Imperador nunca ter mandado cunhar nenhuma. Não obstante não ter existência física esta moeda serviu durante muito tempo de padrão de valor, sendo transações, dívidas e impostos expressos em libras saldados com um sortido de moedas várias. Finalmente, ninguém no conto usou a nota como reserva de valor, função que foi desempenhada pela palavra dos cinco devedores. A ideia que o crédito concedido é, sob todos os aspetos, melhor reserva de valor que a moeda, seja em vil metal ou em papel iníquo, é antiga: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e onde os ladrões arrombam as paredes e roubam” (Mt 6,19) mas “fazei amigos com as riquezas da iniquidade para que, quando vierdes a precisar, vos recebam…” (Lc 16,9).

Mas é no desaparecer da nota de 100 euros que se concentra o escândalo do histrião que compôs o conto do mail: “zero euros pagaram 500 euros de dívida.” Não será uma fraude? Para perceber porque não é, convirá ter presente que a razão de ser das notas de 100 euros é unicamente pagar: pagar compras, pagar juros, pagar dívidas, pagar impostos. Não servem para mais nada senão para pagar: não servem para comer, não servem para vestir e o calor que produzem quando queimadas não chega para aquecer. O uso da nota para entesouramento, privando-a de realizar o fim para que existe, é uma perversão condenada unanimemente por um largo espectro de moralistas, desde S. Tomás de Aquino (1225—1274) a Carlos Marx (1818—1883) e com pai Adão Smith (1723—1790) pelo meio. Aliás a eficiência de uma nota mede-se pela quantidade de compras, juros, dívidas e impostos que ela consegue pagar por unidade de tempo. A nota de 100 euros do conto pagou em menos de meia hora 500 euros, o que é uma produtividade muito boa. De uma maneira geral, e esta é a outra mensagem importante deste conto, quanto mais alta for a velocidade da moeda, isto é, maior for o rácio entre o valor de transações efetuadas e a quantidade de moeda em circulação, melhor é o estado da economia e melhor funciona a política monetária.

A fraude não está em poucos euros pagarem muitas dívidas. A fraude está em se emitir divida, soberana ou particular, que não se pode, ou não se pretende, pagar.”

José Miguel Pinto dos Santos, Observador, 22 Março 2017

Criar emprego

“A Sonae, que se apresenta como o maior empregador privado português, com mais de 40 mil trabalhadores, criou 2265 postos de trabalho em 2016. Este número corresponde a uma média de 6,2 novos empregos por dia e ajudou a acompanhar a dinâmica de crescimento de um grupo que viu as vendas crescerem 7,2%, para os €5,3 mil milhões, ou “vendeu por dia mais um milhão de euros do que no ano anterior”, como sublinhou o copresidente executivo da empresa, Ângelo Paupério, na apresentação de contas do grupo.”

Margarida Cardoso, Expresso, 19 Março 2017

Hobbes

“Em 1998, quando o herói do PCP e do Bloco (Hugo Chavéz) chegou ao poder, 42% dos venezuelanos vivia na pobreza. Agora, depois de vinte anos de socialismo chavista defendido por intelectuais, políticos, académicos e jornalistas de Lisboa, 82% dos venezuelanos vive na pobreza total.

Pela enésima vez, o comunismo ou socialismo defendidos pelo Bloco e PCP destruiu um país; pela enésima vez, as soluções “avançadas” da esquerda devolveram um país inteiro ao estado da natureza, à anarquia, à fome, à mortalidade infantil, à morte nos hospitais motivada pela falta de medicamentos simples, aos raptos, aos assassínios, ao indescritível caos das prisões. Este estado da natureza hobbesiano foi, é e será sempre a consequência das ideias defendidas por Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. Hobbes, e não Marx, está sentado à espera dos dois para almoçarem em Caracas.”

Henrique Raposo, Expresso, 19 Abril 2017

Fatima

“Anselmo Borges, padre da Sociedade Missionária Portuguesa, falou ao Expresso a propósito do lançamento do seu novo livro, “Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo”

Decidiu ser padre aos 19 anos porque a morte o inquietava. Ainda pensa na finitude, mas diz que “a única porta de salvação para uma vida eterna” foi Jesus quem lha abriu. Entrou há 50 anos, ao ser ordenado pelo cardeal Cerejeira. Nunca deixou a Igreja mas arrepiou caminho e escolheu a via da crítica ativa. Professor universitário em Coimbra, lança um novo livro — “Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo” —, prefaciado por Artur Santos Silva e, a partir da próxima semana, vai andar pelo país a apresentá-lo, na presença de pessoas tão diferentes como Ramalho Eanes, Frederico Lourenço, Pedro Mexia, Pedro Rangel, Maria de Belém, Carlos Fiolhais ou Isabel Allegro de Magalhães.

No seu livro levanta questões mais comuns ao discurso de não católicos. Ainda se revê na Igreja?

Pertenço por convicção à Igreja Católica e procurei ser leal, mas há duas questões fundamentais. A primeira é que Deus é amor. A outra tentativa de definir Deus surge no Evangelho segundo São João: no princípio era o logos, a razão, e Deus é razão. Para mim, se Deus é razão, devemos estar na Igreja com dimensão crítica. E se a fé não deriva da razão, à maneira das ciências matemáticas, para ser humana, não a pode contradizer.

O livro é um alerta para situações com as quais não concorda?

Exatamente. Há uma crítica para dentro da Igreja, seguindo alertas que vêm do Papa Francisco. Porque este Papa é cristão no sentido mais radical, não é apenas batizado, ele segue Jesus. E quando olhamos para a Igreja, nem sempre vemos um verdadeiro discipulado de Jesus. Assistimos a uma hierarquia que frequentemente vive na ostentação, que não se bate pelos direitos humanos, que têm de ser praticados dentro da Igreja. Depois do Concílio Vaticano II, a primavera da Igreja, veio o inverno, que teve uma expressão dramática na condenação de teólogos.

Francisco trouxe uma nova primavera?

As pessoas gostam dele, ele faz o que Jesus fazia, é amor.

Mas basta? Jesus provocou ruturas. E o Papa Francisco?

Jesus opôs-se à religião estabelecida, foi crucificado por ter sido condenado, em primeiro lugar, pela religião oficial. Foi condenado como blasfemo e subversivo. E o Papa Francisco, se não tivesse operado ruturas, não tinha tanta oposição de alguns cardeais.

A oposição existe em Portugal?

O que mais noto aqui é que o Papa Francisco não está vivo e operante, em primeiro lugar, na hierarquia católica. Diria até que há mais simpatia para com ele fora da Igreja.

No livro diz que a Igreja portuguesa parece paralisada. O que Francisco pode provocar em Fátima?

Fátima é um caso muito especial de religiosidade. A Igreja oficial tenta enquadrar Fátima, mas as pessoas vão lá com uma devoção particular.

A mãe de Jesus surgiu em Fátima?

Posso ser um bom católico e não acreditar em Fátima porque não é um dogma. Não me repugna, contudo, que as crianças, os chamados três pastorinhos, tenham tido uma experiência religiosa, mas à maneira das crianças e dentro dos esquemas religiosos da altura. É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objetivo. Uma experiência religiosa interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um delírio, mas é subjetivo. É preciso fazer esta distinção. E por isso digo que é necessário evangelizar Fátima, ou seja, trazer uma notícia boa. Porque mesmo para aquelas crianças, aquela não foi uma notícia boa: que mãe mostraria o inferno a uma criança?”

Christiana Martins, Expresso, 16 Abril 2017

 

 

Utopia

“Tzvetan Todorov (1939-2017) fez no ensaio aquilo que Camus fez no romance. Os seus ensaios faziam às ideias aquilo que Camus fazia às personagens, ou seja, impunha-lhes uma certa decência camusiana, que assentava neste princípio: o fim das utopias não legitimava o cinismo, não saltamos do 80 maximalista para o 8 minimalista; há um ponto intermédio – a decência – entre a overdose utópica e a amoralidade do cinismo.

O pensamento de Todorov até me faz lembrar Bernard Rieux, a personagem principal de “A Peste”: a inexistência de uma Humanidade una e bondosa não legitima o abandono dos homens concretos que sofrem à nossa volta. Este humanismo camusiano é bem evidente num dos grandes resumos do século XX, “Memória do Mal, Tentação do Bem” (Edições Asa).”

Henrique Raposo, Expresso, 11 Abril 2017

maria helena

“Morreu a mulher que aprendeu com os gregos que as coisas belas são difíceis.

Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017) foi durante décadas o rosto dos Estudos Clássicos em Portugal. Deixa uma obra vastíssima e um exemplo de determinação e rigor. As suas traduções das grandes tragédias gregas são uma referência, assim como os trabalhos que fez à volta da literatura portuguesa.”

Lucinda Canelas e Luís Miguel Queirós, Público, 10 de Abril de 2017

 

dissolver os factos

“Há uma característica curiosa no debate sobre a saída do euro. Os seus maiores defensores exigem que esse debate se faça mas ficam descontentes com qualquer argumento que não concorde com a conclusão que preferem. Eu concordo que este é um debate que tem de ser feito. Mas espero que os proponentes da saída concordem que ele só pode ser feito com todos os factos.

Carlos Carvalhas, ex-secretário-geral do PCP, respondeu à minha crónica de passada quarta alegando que “a saída de Portugal da zona Euro não implica a saída da UE” e citando um documento do BCE (“legal working paper” 10, de 2009) que, segundo Carvalhas, “prevê a possibilidade de um país sair unilateralmente do Euro”. Não é a mesma coisa. Basta ler o documento para ver logo na segunda frase que a saída do euro sem saída da UE seria “legalmente inconcebível” e na página 7 que esta seria legalmente impossível (no original: “withdrawal from EMU without a parallel withdrawal from the EU would be legally impossible”). Não fui eu que trouxe este documento para a discussão; podemos ao menos concordar que ele diz o contrário do que foi alegado por Carvalhas?

A razão por que é praticamente impossível sair do euro sem sair da UE é elementar: não existe nenhum “tratado do euro” de que se possa sair. Existe um Tratado da UE do qual se sai usando o agora famoso artigo 50. Esse tratado (mais um outro, sobre o funcionamento da UE) inclui o euro mas também incontáveis outras coisas, como a liberdade de circulação, os nossos direitos de voto ou o acesso a fundos europeus. Sair destes tratados é sair da UE, e tem inúmeras consequências para a vida de milhões de portugueses, cá dentro ou lá fora. Convinha que não o descobríssemos só no momento das negociações, graças a um “debate” de que os factos mais relevantes tivessem sido afastados com um encolher de ombros.

Uma segunda resposta à mesma crónica, desta feita por José Guilherme Gusmão, dirigente do BE, acaba implicitamente admitindo que Portugal sairia da UE ao usar como comparação a Noruega — país que não está no euro, nem na UE, mas no mercado único. Só que a Noruega tem de aceitar as regras do mercado único sem nelas ter direito de voto. E para o resto tem que pedir acordos que podem ser rejeitados pelo Conselho ou pelo PE. Como “recuperação de soberania” não é brilhante. Acrescente-se que Portugal não sairia da UE com os acordos que a Noruega negociou durante décadas. E tampouco sairíamos com o petróleo da Noruega, se é que isso não é evidente.

Gusmão alega também que o cenário que eu descrevi — estar fora do mercado da UE em caso de saída do euro — “configuraria um embargo comercial”. Eu não escrevi tal absurdo. O que configuraria é uma grande desvantagem comparativa para o nosso país no acesso aos nossos maiores clientes, e não só nas tarifas. Como nos pode explicar qualquer camionista que entregue, por exemplo, peças para a indústria automóvel, um dos grandes problemas de estar fora da UE está na burocracia e nos tempos de espera na fronteira que não se compadecem com as cadeias de produção atuais. Criar a Portugal uma desvantagem permanente em nome da vantagem temporária de desvalorizar a moeda pode não chegar sequer para compensar a saída.

Mas claro que depois de sair da UE e do euro, e de tentar renegociar a dívida numa posição de incerteza externa e divisão política interna, será facílimo convencer os outros países a darem-nos as vantagens de acesso entretanto abandonadas. Bastará para tal não esquecer que somos uma República soberana, como refere Gusmão. Pois somos, e ainda bem. Mas os outros também são estados soberanos. E é de acesso aos mercados dos outros, e de direitos de cidadãos portugueses nos territórios dos outros, que estamos a falar.

Como Gusmão bem sabe, sempre fui a favor de fazer este debate mesmo quando o então coordenador do BE achava que a saída do euro era um “projeto macabro” sonhado pelos ”idiotas úteis da senhora Merkel” (Expresso, 17/11/2011). Uma vez que nunca usei tal linguagem de chantagem e sectarismo, acolho qualquer diálogo que respeite a seriedade dos interlocutores. O que apresento aqui são factos. Ora a nossa soberania, que não prezo menos do que Carvalhas e Gusmão, ainda não nos permite dissolver os factos incómodos como se de uma varinha de condão se tratasse.”

Rui Tavares, Publico, 05 Abril 2017

Vacas gordas

“1. Este quadro, retirado de um estudo do Forum para Competitividade citado no Expresso, mostra duas coisas indesmentíveis:
– que o impacto económico da adesão tanto à UE como ao euro – muito positivo nuns países, muito menos noutros – depende essencialmente das políticas nacionais;
– que o desempenho económico de Portugal foi um desastre, agravado pela recessão de 2011-14, tendo o país sido ultrapassado por vários outros, que partiram muito mais atrasados.
O nosso miserável desempenho económico é o resultado de opções económico-financeiras erradas, baseadas no crescimento da despesa pública e no endividamento, na aposta em investimento nos setores não transacionáveis (nomeadamente a construção civil), no crescimento de salários acima da produtividade, na falta de aposta na produtividade e na competitividade externa, no excessivo endividamento de empresas e famílias, no desequilibrio comercial externo.”

“2. Quanto o ciclo económico está de novo em alta, como agora – puxado pela robusta retoma europeia – e os juros permanecem baixos – cortesia do BCE -, é mais fácil alimentar a despesa pública, aumentar rendimentos, descer o défice nominal (que não o estrutural) e o rácio da dívida e até conseguir uma melhoria de notação das agências de rating.

O problema é o de saber se não estamos agora a repetir alguns dos principais erros da década de 90, quando a enorme descida da taxa de juro ligada à perspetiva de entrada no euro foi aproveitada para aumentar imprudentemente a despesa pública e privada, para investir no imobiliário, para subir os salários acima da produtividade, para aumentar exponencialmente o consumo a crédito e reduzir a poupança interna, ou seja, para viver outra vez “acima das possibilidades”.
O pior vem depois, quando aquela virtuosa e pouco comum combinação de crescimento económico e juros baixos se desfizer, ou seja, quando vier a inevitável subida da taxa de juro e, mais tarde,  o arrefecimento ou a inversão do ciclo económico.”

“3. Quem se refastela imprudentemente em período de “vacas gordas”, como sucedeu há vinte anos, corre o riso de amargar a vida quando os tempos fastos virarem.
Se a situação se repetir, não nos queixemos outra vez ingratamente da Europa, para esconder a nossa recidiva nos mesmos erros.”

Vital Moreira, Causa Nossa, 04 Abril 2017

 

liberais

“Se o liberalismo e a prosperidade andam juntos, o socialismo e a pobreza andam de mãos dadas. E esqueçam a retórica socialista. Os partidos socialistas não querem, nunca quiseram, acabar com a pobreza

O visual “Trumpesco” de Wilders e a obsessão com o populismo moldaram as análises dos resultados das eleições holandesas. A derrota de Wilders é relevante mas só conta metade da história. A derrota das esquerdas constitui a outra metade. Será mesmo caso para dizer: mais uma derrota depois da maior crise financeira das últimas décadas. Os socialistas holandeses tiveram um resultado miserável, passando de maior partido das esquerdas para o terceiro (na práctica, o último dos que contam). A extrema esquerda, embora à frente dos socialistas, perdeu um deputado em relação às últimas eleições. Os Verdes foram os únicos que cresceram entre as esquerdas, aumentando o número de deputados de 4 para 14.

A direita e os liberais foram os grandes vencedores. Os liberais de direita, partido do PM Mark Rutte, ganharam e continuam a ser o maior partido. Os democratas cristãos recuperaram, em parte, da grande derrota das últimas eleições. Os liberais do centro, o D66, também melhoraram tornando-se, juntamente, com os democratas cristãos o terceiro maior partido. O nosso (salvo seja) PS justificou a derrota dos socialistas holandeses com a coligação com a direita dos últimos anos. Esta explicação só serve para justificar a geringonça nacional e não resiste a dois minutos de escrutínio. Em primeiro lugar, é verdade que os socialistas foram o parceiro menor da última coligação, mas fizeram uma campanha bem à esquerda. Se o eleitorado socialista penalizou a aliança à direita, porque não votou nos outros partidos de esquerda e foi votar na direita?

Olhando para outros países europeus, a tese socialista também não resiste. Aqui ao lado, em Espanha, o PSOE nunca se aliou à direita e sofreu duas pesadas derrotas eleitorais no último ano. Em França, o mesmo. Os socialistas franceses estão divididos e fracos, de tal modo que Hollande nem sequer se recandidatou, e não se aliaram à direita. Na Alemanha, passa-se o oposto. O SPD está numa coligação com a direita, mas está empatado nas sondagens. A falta de um mínimo de seriedade intelectual do actual PS é espantosa e vergonhosa, apesar de os seus dirigentes não sentirem qualquer vergonha.

Talvez a explicação da derrota socialista não se encontre na coligação com a direita mas nos seus próprios erros. Ou, melhor, no seu programa político. A maioria dos holandeses não se revê no aumento do peso do Estado na economia nem na entrada ilimitada de emigrantes, tradicionalmente vistos pela esquerda como um batalhão de potenciais eleitores. Se os holandeses recusaram o extremismo de Wilders, preferem o realismo dos liberais ao multiculturalismo socialista. Mas a economia foi o tema central das eleições; não foi a emigração nem a Europa. E os factos são claros. A maioria dos holandeses olha para a direita e os liberais como os melhores para recuperarem a economia, mesmo depois da crise.

Não é só na Holanda que se olha para as ideias liberais como ajustadas para a prosperidade económica. Acontece o mesmo nos países escandinavos, na Alemanha e no Reino Unido. Nestes países, o peso das ideias liberais vai muito para além dos partidos Liberais. Influencia os programas económicos dos principais partidos, sobretudo à direita, mas também nos partidos de centro-esquerda. Não é por acaso que estes países são os mais ricos no mundo e com as sociedades mais justas. Em grande medida, deve-se à tradição liberal.

Se viajarmos para sul onde as ideias liberais têm pouco impacto, encontramos países com uma forte tradição socialista. França, Espanha, Portugal, Itália e Grécia, países endividados, pobres, com o Estado a meter-se em tudo o que mexe. Se o liberalismo e a prosperidade andam juntos, o socialismo e a pobreza andam de mãos dadas. E esqueçam a retórica socialista. Os partidos socialistas não querem, nem nunca quiseram, acabar com a pobreza. Querem uma sociedade de cidadãos remediados e dependentes do Estado, e isso só se consegue com pobreza e pouco desenvolvimento económico. Daí vem a sua força e os seus votos. Nos países desenvolvidos, os partidos socialistas perdem força e, para ganhar eleições, precisam de adoptar algumas propostas mais liberais, como fazem os partidos sociais democratas do norte da Europa.

Entre 1986 e 2009, Portugal perdeu uma oportunidade histórica para se tornar mais liberal, mais desenvolvido e mais rico. Falhou. Em vez disso, tornou-se altamente endividado, remediado e pouco desenvolvido. A crise piorou tudo. Foi o resultado de um excesso de socialismo e um enorme défice de liberalismo. O pior é que não temos emenda. Estamos condenados à pobreza e ao socialismo.”

João Marques de Almeida, Observador, 19 março 2017