The Economist: Os primeiros 175 anos

“Os 175 anos de The Economist e os 190 anos de The Spectator ajudam a perceber por que motivo não houve revoluções em Inglaterra nos últimos 329 anos.

A 9 de Julho, assinalei aqui os primeiros 190 anos da revista britânica The Spectator. Chegou agora a vez de comemorar os 175 anos da também britânica The Economist.

Uma primeira pergunta que os dois vetustos aniversários podem sugerir é por que motivo existem revistas independentes tão antigas em Inglaterra. E uma óbvia resposta que pode ocorrer em primeiro lugar é que o facto de não ter havido revoluções em Inglaterra desde 1689 deve seguramente ter ajudado. Um clima de liberdade ordeira permite que as instituições cresçam tranquilamente e se consolidem.

A óbvia pergunta seguinte ocorre de imediato: por que motivo não houve revoluções em Inglaterra nos últimos 329 anos? A leitura desta edição comemorativa dos 175 anos de The Economist pode certamente ajudar a começar a responder a esta pergunta.

A revista assinala os 175 anos com um longo ensaio (pp. 41-52) intitulado “The Economist at 175: Reinventing liberalism for the 21st century”. Não seria possível, nem certamente aconselhável, tentar resumi-lo aqui. Limitar-me-ei a destacar aquilo que me pareceu mais distintivo da liberdade ordeira inglesa. Creio que não é difícil de identificar.

The Economist define-se como defensora do liberalismo — “não o esquerdismo progressista dos ‘campuses’ das universidades americanas, nem o direitista ultraliberalismo congeminado pelos comentadores franceses, mas um comprometimento universal com a dignidade individual, mercados abertos, governo limitado, e uma fé no progresso humano resultante do debate e da reforma”.

Em seguida, a revista declara que estes ideais — que contribuíram decisivamente para produzir o mundo moderno e a prosperidade inédita a ele associado — estão hoje em crise na Europa e na América que os geraram. E essa crise tem expressão na revolta dos eleitorados.

Até aqui, não parece haver nada de novo (com ligeira excepção da definição particular de “liberalismo”). O que é realmente original vem a seguir.

Em vez de culpar os eleitores pela revolta contra o “liberalismo”, ou culpar as conspirações destes ou daqueles, ou a ignorância dos “eleitores brancos pobres”, ou a “xenofobia nacionalista” desses eleitores contra os imigrantes, — em vez de tudo isso, The Economist procura entender as motivações dos eleitores.

E conclui que existem razões para a revolta dos eleitores: “a Europa e a América enfrentam uma rebelião popular contra as elites liberais, que são percepcionadas como usando o sistema para se servirem a si próprias e como incapazes, ou sem vontade, de resolver os problemas das pessoas comuns.”

A revista não subscreve essas percepções do eleitorado. Mas reconhece que há algum fundamento para elas: “o sucesso das ideias liberais tornou as elites liberais complacentes e totalmente alheadas das preocupações das pessoas comuns.” Para enfrentar este distanciamento, a revista propõe então uma longa lista de reformas, a que chama “um manifesto para um renascimento liberal — um liberalismo para as pessoas comuns”.

Não é possível resumir aqui essa longa lista de reformas. Nem esse é, de momento, o meu tema central. Não pretendo subscrever, nem contrariar, as medidas específicas propostas por The Economist (embora não possa deixar de mencionar a proposta de controlo da imigração). O que pretendo sublinhar é a atitude da revista:

“Os liberais precisam de gastar menos tempo a desprezar os seus críticos, classificando-os de doidos ou fanáticos, e de gastar mais tempo a corrigir o que está mal. (…) Os liberais devem aceitar as críticas e dar as boas-vindas ao debate como fonte de novas ideias que irão reavivar o seu movimento. (…) Isto significa liberdade de expressão. E expressão que seja bem informada e de boa fé.”

Estas palavras trazem imediatamente à memória a comemoração dos 190 anos de The Spectator, em Julho passado. Também ela condenou as dicotomias tribais que estão a dominar o debate actual. E defendeu “a tradição britânica de robusta mas amigável discordância.”

As duas revistas são de certa forma concorrentes: The Spectator ao centro-direita, The Economist ao centro/centro-esquerda (por padrões britânicos — ambas provavelmente ao centro-direita por padrões continentais). Mas ambas apontam a mesma convergência em torno de regras gerais de conduta civilizada: a recusa das dicotomias tribais e a retoma da tradição britânica de robusta mas amigável discordância.

Talvez esta convergência em torno de regras gerais de conduta civilizada por parte de propostas rivais possa ajudar a perceber por que motivo não houve revoluções em Inglaterra nos últimos 329 anos. E por que motivo subsistem revistas independentes tão antigas.”

João Carlos Espada, Observador, 17 Setembro 2018

Trump e o equívoco libertário

“Os libertários ou anarco-capitalistas julgam que a globalização é apenas um processo económico auto-suficiente, pensam que as trocas do mercado podem ser operados num vácuo apolítico, advogam que a mão invisível não precisa da mão de ferro dos estados. Se seguirmos a linha liberal clássica, isto é, se afirmarmos que o mercado só é possível a jusante devido à presença do estado de direito a montante, ficamos debaixo de fogo deste setor libertário que se tornou na ortodoxia de muita direita. Este anarquismo capitalista bloqueia na palavra “estado” da mesma forma que a esquerda marxista bloqueia na palavra “mercado”; os libertários diabolizam a palavra “estado” mesmo quando estamos a falar de estados liberais e republicanos, mesmo quando estamos a falar de alianças kantianas entre estados liberais.

Nesta lógica apolítica e muitas vezes amoral (pois apenas respeita a força demonstrada no mercado), toda a aparelhagem política e diplomática que sustenta a globalização, a começar na NATO e nas restantes alianças militares americanas, é considerada um absurdo arqueológico. Se a globalização é um processo meramente económica entre empresários e consumidores, então não depende de acordos políticos entre estados, então a política, a diplomacia e a estratégia são coisas do passado. Trump olha para o mundo através deste equívoco libertário ou anarco-capitalista.

Como julga que a globalização é pura economia entre mercados sem qualquer interferência da política entre estados, sobretudo entre estados liberais (as “democracias”), Trump olha para a ordem internacional com a fúria anarquista do anarco-capitalista que celebra 1989 como o velho marxista celebrava 1917. Em resultado, olha para a NATO e para as alianças com as democracias asiáticas não como pilares da ordem internacional, mas sim como meras despesas. Donde a atitude de merceeiro: como não percebe que as alianças têm um valor político intrínseco (garantem paz e a previsibilidade conhecida por “globalização”), Trump encara as outras democracias não como aliadas, mas como clientes que têm de pagar mais pelo serviço prestado pelos EUA. Destruir Trump também implica destruir o primado do anarco-capitalismo no coração da direita americana e, por arrasto, na direita ocidental.”

Henrique Raposo, Expresso Diário, 18 Setembro 2018

O homem que matou Liberty Valance

“A fundação da sociedade ordeira não teve, ao contrário do que se pensa, origem no exemplar representante da lei. O verdadeiro herói fundador permaneceu desconhecido. Em sua substituição ficou a lenda.

Os westerns são provavelmente os filmes em que as questões políticas da lei, da autoridade e do que constitui uma comunidade se encontram melhor expressas. A razão simples e óbvia disto é que nada se encontra, nesses domínios, adquirido, e tudo está em processo de constituição. Os personagens, nos grandes westerns, representam as forças ambíguas e contraditórias que chocam entre si no processo da construção da comunidade política. Um óptimo pequeno livro do filósofo americano Robert Pippin (Hollywood Westerns and American Myth) explora este óbvio para lá do óbvio, com grande subtileza e sensibilidade, a partir de três grandes filmes: Red River, de Howard Hawks, e The Searchers e The Man Who Shot Liberty Valance, ambos de John Ford. Revi recentemente este último, e não me custa nada concordar com o que Pippin diz, que é em muito semelhante ao que vou escrever. Não sem alguma má-consciência, devo dizer. A grandeza do filme aconselha a não o reduzirmos a nenhum dos seus muitos planos, mesmo que o plano seja claramente essencial.

A história é relativamente simples de contar. Um velho senador, Ransom Stoddard (Jimmy Stewart), regressa com a sua mulher, Hallie (Vera Miles), a uma terra onde ambos viveram no passado, Shinbone, para assistir ao funeral de um velho amigo, Tom Doniphon (John Wayne). Pouco depois de saírem do comboio, Stoddard é entrevistado pelo jornal local, que não quer perder a oportunidade de ouvir a grande personagem. Começa então um longo flashback, que dura praticamente todo o filme, em que é narrado o conflito entre Stoddard e o pistoleiro Liberty Valance (Lee Marvin), cuja morte em duelo com Stoddard, então um jovem advogado acabado de chegar à terra, proporcionou o início da sua celebridade e da sua gloriosa carreira política e antecedeu o seu casamento com Hallie. Finda a entrevista, e depois de um último olhar ao caixão de Tom (de facto, não assistem ao funeral), Stoddard e Hallie retornam a Washington, ambos concordando, no comboio, em passarem os últimos anos das suas vidas em Shinbone, onde está o seu coração.

O essencial está, é claro, no flashback, que descreve uma situação muito próxima daquilo que os filósofos chamam “estado de natureza”, onde a lei e a autoridade são, no mínimo, precárias e onde o xerife, Link Appleyard (o magnífico Andy Devine), treme como varas verdes ao simples som da voz de Liberty Valance. Nessa espécie de estado de natureza, três figuras são centrais: Liberty Valance, que representa o estado de natureza na sua mais pura dimensão de violência, Stoddard, que emblematiza as forças que visam a constituição de uma comunidade política ordeira – e Tom Doniphon, o individualista que tem um pé em cada uma das ordens que se opõem. Além de Hallie, a filha de emigrantes suecos por quem Tom se encontra apaixonado e com quem pretende casar. A relação entre Tom Doniphon e Hallie é um outro aspecto do filme claramente central. A troca de Tom por Stoddard por parte de Hallie é, também ela, uma manifestação do abandono do estado de natureza – um abandono que é, neste caso, uma perda grave tanto para Tom como para ela, uma evidência que percorre o filme de uma ponta a outra.

Stoddard, que Tom trata por “Peregrino”, é então a figura da constituição de uma sociedade política ordeira. Cruelmente sovado por Liberty Valance aquando da sua chegada, numa diligência, a Shinbone, rapidamente procura instruir os habitantes no império da lei. Munido dos seus livros, dá aulas sobre a Constituição, colabora com Peabody, o proprietário do jornal local, o Shinbone Star, e ensina Hallie a ler e a escrever. De uma indiscutível coragem pessoal, é o perfeito representante do estado civil a vir. Pretende, por assim dizer, transformar o deserto num jardim. E, na mais simbólica imagem do filme, substituir as rosas de cacto que Tom oferece a Hallie por “rosas reais”. O duelo vitorioso com Liberty Valance realiza na perfeição a figura do herói civilizador.

Acontece, no entanto – e isso é revelado por um flashback de Tom Doniphon dentro do flashback de Stoddard na sua entrevista aos jornalistas locais -, que quem verdadeiramente matou Liberty Valance não foi Stoddard, inábil com as armas, mas Tom Doniphon, que, avisado por Hallie do duelo, dispara, sem por ninguém, excepto pelo seu criado Pompey (Woody Strode), ser visto, ao mesmo tempo que Stoddard mas acertando no alvo. Tom não o revela a ninguém, lamentando-se por ter chegado demasiado tarde, até, por amor de Hallie, que já perdera definitivamente para Stoddard, contar a este como tudo se passou, para que ele possa prosseguir a sua carreira política sem o peso na consciência de ter morto um homem, algo de incompatível com a figura de um impecável representante da civilização. You talk too much, think too much. Besides, you didn’t kill Liberty Valance. Quem o matara fora ele. Cold-blooded murder. But I can live with it. Hallie’s happy, diz o terrível rosto de Wayne,

Fernando Gil, nesse grande livro de filosofia que é A convicção, distingue dois conceitos: fundação e fundamento. A fundação é o movimento que instaura uma nova ordem, em política, no conhecimento e noutros domínios. O fundamento é a versão petrificada, mítica, do gesto fundador, que no essencial o recalca e oculta. Em O homem que matou Liberty Valance temos um perfeito exemplo disso. A fundação da sociedade ordeira não teve, ao contrário do que todos pensam, origem no exemplar representante da lei. A fundação, representada pela morte do pistoleiro Liberty Valance, deu-se pela acção de Tom Doniphon, o homem que não se interessava por projectos políticos, mas apenas por um projecto pessoal: casar com Hallie. O verdadeiro herói fundador permaneceu desconhecido. Em sua substituição ficou a lenda, transformada em fundamento da civilização ordeira. Nada é bom demais para o homem que matou Liberty Valance, diz o empregado de comboio a Stoddard, no fim do filme.

É verdade que Stoddard conta a verdadeira história aos jornalistas. Mas a célebre reposta do director do jornal, recusando publicar essa parte do relato (This is the West, Sir. When the legend becomes fact, print the legend), deixa-o, no fundo, satisfeito. A libertação obtida pela revelação da verdade conjuga-se com a satisfação de saber que ela permanecerá secreta e não noticiada. É de resto duvidoso que a sua mulher, Halley, saiba verdadeiramente o que se passou realmente, o passado escondido dentro do passado. A fundação continuará ocultada pelo fundamento. Tom Doniphon, esquecido de quase todos, deverá assim continuar. E essa ocultação é provavelmente necessária para a criação da comunidade política legal e democrática – é o que o filme parece indicar.

Mas, subterraneamente a essa ficção, permanecem o deserto e as rosas do cacto que Hallie deposita sobre o caixão de Wayne. A civilização das “rosas reais”, do jardim em que Shinbone se tornou, não apaga nunca completamente o mais profundo. “O deserto é o mesmo”, diz o antigo xerife Link a Hallie. Hallie sabe-o e Stoddard provavelmente suspeita-o, como suspeita que o verdadeiro amor de Hallie era Tom, o sacrificado da civilização. Todos nós, se nos atrevermos a viajar um pouco fora dos costumes bem-pensantes, o suspeitamos.”

Paulo Tunhas, Observador, 20 abril 2017

Mais uma fraude financeira?

“A fraude não está em poucos euros pagarem muitas dívidas. A fraude está em se emitir divida, soberana ou particular, que não se pode, ou não se pretende, pagar.

Analisem bem e vejam como é possível! Imaginem que um casal chega a um hotel da vossa terra e pergunta quanto custa um quarto para o fim de semana. O rececionista responde:
– 100 euros pelos 2 dias.

– Muito bem, responde o cavalheiro. Mas gostaríamos de conhecer as vossas instalações antes de reservarmos. O quarto, a piscina, o restaurante…
– Não há problema, responde o rececionista. Os senhores deixam uma caução de 100 euros, levam a chave e podem visitar as nossas instalações à vontade. Se não gostarem nós devolvemos o dinheiro.
– Combinado, disse o casal.
Deixaram uma nota de 100 euros e foram visitar o hotel. Acontece que:

O rececionista devia 100 euros à mercearia do lado e foi a correr pagar a dívida.
O merceeiro devia 100 euros na sapataria e foi a correr pagar a dívida.
O sapateiro devia 100 euros no talho e foi a correr pagar a dívida.
O talhante devia 100 euros à agência de viagens e foi a correr pagar a dívida.
O dono da agência devia 100 euros ao hotel e foi a correr pagar a dívida…
Nisto o casal completou a visita e informou que afinal não vai ficar no hotel.
– Não há problema. Tal como lhe disse, aqui tem o seu dinheiro, devolveu o rececionista.
Conclusão: Toda a gente pagou a quem devia… sem dinheiro nenhum. O casal levou os 100 euros que pagaram todas as 5 dívidas no valor total de 500 euros. Ponham aqui os olhos e percebam que todo o sistema financeiro pode ser uma fraude. Zero euros pagaram 500 em dívida. E podíamos continuar indefinidamente.

Este conto popular, que faz rondas na internet, faz uma descrição esquemática, mas correta, da economia. Não obstante, tira a conclusão errada. Não, o sistema financeiro, tal como descrito, não é uma fraude.

Uma das ideias centrais que deste conto se deve tirar é que o crédito permite realizar transações. Transações que são elemento fundamental da vida económica. Foi o crédito que permitiu ao talhante comprar um bilhete de avião à agência de viagens, e foi o crédito que permitiu ao sapateiro vender sapatos ao merceeiro. Tal como nesta aldeia, não só a economia nacional, mas também a global, são sustentadas pelo crédito e sem ele implodiriam: hoje quase tudo é transacionado a crédito. O que é crédito? Crédito é a aceitação de uma promessa de ressarcimento futuro.

Aqui as palavras chaves são promessa e aceitação. Para o sapateiro poder levar os bifes para casa necessitou de fazer uma promessa de compensação futura e bastou que o talhante a aceitasse. Para haver crédito é preciso haver confiança entre duas pessoas. Neste sentido, transações a crédito, porque implicam um relacionamento estável e de confiança mútuo, revestem-se de um carácter mais humano do que aquelas que são liquidadas a pronto e não requerem que as duas partes voltem ao contacto. Por alguma razão ninguém vende droga nem armamento a crédito. Por alguma razão, aqueles que tiveram a experiência de comprar numa mercearia das antigas, daquelas que davam crédito, consideram que a experiência era humanamente mais rica que ir às compras numa grande superfície. Por alguma razão ninguém que tencione vender gato por lebre, ou de outro modo enganar o parceiro, dá crédito.

Repare-se também que a economia da aldeia funciona bem sem a nota de 100 euros. O que o aparecimento da nota do Banco Central Europeu (BCE) provocou neste conto foi a liquidação dos cinco créditos. Será que a nota era necessária para a liquidação destes créditos? Não! Outros mecanismos teriam realizado o mesmo efeito. Um poderia ter sido a existência, na aldeia, de uma câmara de compensação; outro poderia ter sido a emissão de uma nota de dívida por um dos cinco comerciantes que fosse aceite por todos. Suponhamos que era o homem do hotel quem tinha mais crédito na aldeia, isto é, quem inspirava mais confiança a todos os outros: a sua nota quando recebida pelo merceeiro seria por este transmitida ao sapateiro para liquidar a sua dívida, que a passaria ao homem do talho, este ao dono da agência, e por fim seria usada por este último para liquidar a sua obrigação para com o hoteleiro. Também nesta situação o que é central é a confiança que o rececionista tem entre todos os seus concidadãos.

Será de frisar que a nota emitida pelo rececionista teria exatamente o mesmo efeito que a nota do BCE: liquida as cinco dívidas e desaparece. Mas será também de ter presente que as notas do BCE só são aceites enquanto este gozar de crédito, isto é, inspirar confiança. Uma confiança de grau igual ou superior à que o rececionista goza na aldeia.

De notar ainda que a nota de 100 euros não cumpre no conto nenhuma das funções usualmente exigidas para algo ser considerado moeda: meio de troca, unidade de conta, e reserva de valor. De facto não foi a nota do BCE que permitiu o sapateiro levar bifes para casa: foi a sua promessa de compensação futura. Não foi a nota de 100 euros que serviu de unidade de conta, ou padrão de valor, na transação; a unidade de conta foi antes o Euro, medida abstrata, não a nota, e poderia até ter sido outra medida, o Escudo por exemplo. A história monetária fornece-nos muitos casos em que assim acontecia. Para referir apenas um, note-se que durante muitos séculos após a morte de Carlos Magno quase todos os europeus usaram como unidade de conta a libra de prata carolíngia apesar do Magno Imperador nunca ter mandado cunhar nenhuma. Não obstante não ter existência física esta moeda serviu durante muito tempo de padrão de valor, sendo transações, dívidas e impostos expressos em libras saldados com um sortido de moedas várias. Finalmente, ninguém no conto usou a nota como reserva de valor, função que foi desempenhada pela palavra dos cinco devedores. A ideia que o crédito concedido é, sob todos os aspetos, melhor reserva de valor que a moeda, seja em vil metal ou em papel iníquo, é antiga: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, e onde os ladrões arrombam as paredes e roubam” (Mt 6,19) mas “fazei amigos com as riquezas da iniquidade para que, quando vierdes a precisar, vos recebam…” (Lc 16,9).

Mas é no desaparecer da nota de 100 euros que se concentra o escândalo do histrião que compôs o conto do mail: “zero euros pagaram 500 euros de dívida.” Não será uma fraude? Para perceber porque não é, convirá ter presente que a razão de ser das notas de 100 euros é unicamente pagar: pagar compras, pagar juros, pagar dívidas, pagar impostos. Não servem para mais nada senão para pagar: não servem para comer, não servem para vestir e o calor que produzem quando queimadas não chega para aquecer. O uso da nota para entesouramento, privando-a de realizar o fim para que existe, é uma perversão condenada unanimemente por um largo espectro de moralistas, desde S. Tomás de Aquino (1225—1274) a Carlos Marx (1818—1883) e com pai Adão Smith (1723—1790) pelo meio. Aliás a eficiência de uma nota mede-se pela quantidade de compras, juros, dívidas e impostos que ela consegue pagar por unidade de tempo. A nota de 100 euros do conto pagou em menos de meia hora 500 euros, o que é uma produtividade muito boa. De uma maneira geral, e esta é a outra mensagem importante deste conto, quanto mais alta for a velocidade da moeda, isto é, maior for o rácio entre o valor de transações efetuadas e a quantidade de moeda em circulação, melhor é o estado da economia e melhor funciona a política monetária.

A fraude não está em poucos euros pagarem muitas dívidas. A fraude está em se emitir divida, soberana ou particular, que não se pode, ou não se pretende, pagar.”

José Miguel Pinto dos Santos, Observador, 22 Março 2017

Criar emprego

“A Sonae, que se apresenta como o maior empregador privado português, com mais de 40 mil trabalhadores, criou 2265 postos de trabalho em 2016. Este número corresponde a uma média de 6,2 novos empregos por dia e ajudou a acompanhar a dinâmica de crescimento de um grupo que viu as vendas crescerem 7,2%, para os €5,3 mil milhões, ou “vendeu por dia mais um milhão de euros do que no ano anterior”, como sublinhou o copresidente executivo da empresa, Ângelo Paupério, na apresentação de contas do grupo.”

Margarida Cardoso, Expresso, 19 Março 2017

Hobbes

“Em 1998, quando o herói do PCP e do Bloco (Hugo Chavéz) chegou ao poder, 42% dos venezuelanos vivia na pobreza. Agora, depois de vinte anos de socialismo chavista defendido por intelectuais, políticos, académicos e jornalistas de Lisboa, 82% dos venezuelanos vive na pobreza total.

Pela enésima vez, o comunismo ou socialismo defendidos pelo Bloco e PCP destruiu um país; pela enésima vez, as soluções “avançadas” da esquerda devolveram um país inteiro ao estado da natureza, à anarquia, à fome, à mortalidade infantil, à morte nos hospitais motivada pela falta de medicamentos simples, aos raptos, aos assassínios, ao indescritível caos das prisões. Este estado da natureza hobbesiano foi, é e será sempre a consequência das ideias defendidas por Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. Hobbes, e não Marx, está sentado à espera dos dois para almoçarem em Caracas.”

Henrique Raposo, Expresso, 19 Abril 2017

Fatima

“Anselmo Borges, padre da Sociedade Missionária Portuguesa, falou ao Expresso a propósito do lançamento do seu novo livro, “Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo”

Decidiu ser padre aos 19 anos porque a morte o inquietava. Ainda pensa na finitude, mas diz que “a única porta de salvação para uma vida eterna” foi Jesus quem lha abriu. Entrou há 50 anos, ao ser ordenado pelo cardeal Cerejeira. Nunca deixou a Igreja mas arrepiou caminho e escolheu a via da crítica ativa. Professor universitário em Coimbra, lança um novo livro — “Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo” —, prefaciado por Artur Santos Silva e, a partir da próxima semana, vai andar pelo país a apresentá-lo, na presença de pessoas tão diferentes como Ramalho Eanes, Frederico Lourenço, Pedro Mexia, Pedro Rangel, Maria de Belém, Carlos Fiolhais ou Isabel Allegro de Magalhães.

No seu livro levanta questões mais comuns ao discurso de não católicos. Ainda se revê na Igreja?

Pertenço por convicção à Igreja Católica e procurei ser leal, mas há duas questões fundamentais. A primeira é que Deus é amor. A outra tentativa de definir Deus surge no Evangelho segundo São João: no princípio era o logos, a razão, e Deus é razão. Para mim, se Deus é razão, devemos estar na Igreja com dimensão crítica. E se a fé não deriva da razão, à maneira das ciências matemáticas, para ser humana, não a pode contradizer.

O livro é um alerta para situações com as quais não concorda?

Exatamente. Há uma crítica para dentro da Igreja, seguindo alertas que vêm do Papa Francisco. Porque este Papa é cristão no sentido mais radical, não é apenas batizado, ele segue Jesus. E quando olhamos para a Igreja, nem sempre vemos um verdadeiro discipulado de Jesus. Assistimos a uma hierarquia que frequentemente vive na ostentação, que não se bate pelos direitos humanos, que têm de ser praticados dentro da Igreja. Depois do Concílio Vaticano II, a primavera da Igreja, veio o inverno, que teve uma expressão dramática na condenação de teólogos.

Francisco trouxe uma nova primavera?

As pessoas gostam dele, ele faz o que Jesus fazia, é amor.

Mas basta? Jesus provocou ruturas. E o Papa Francisco?

Jesus opôs-se à religião estabelecida, foi crucificado por ter sido condenado, em primeiro lugar, pela religião oficial. Foi condenado como blasfemo e subversivo. E o Papa Francisco, se não tivesse operado ruturas, não tinha tanta oposição de alguns cardeais.

A oposição existe em Portugal?

O que mais noto aqui é que o Papa Francisco não está vivo e operante, em primeiro lugar, na hierarquia católica. Diria até que há mais simpatia para com ele fora da Igreja.

No livro diz que a Igreja portuguesa parece paralisada. O que Francisco pode provocar em Fátima?

Fátima é um caso muito especial de religiosidade. A Igreja oficial tenta enquadrar Fátima, mas as pessoas vão lá com uma devoção particular.

A mãe de Jesus surgiu em Fátima?

Posso ser um bom católico e não acreditar em Fátima porque não é um dogma. Não me repugna, contudo, que as crianças, os chamados três pastorinhos, tenham tido uma experiência religiosa, mas à maneira das crianças e dentro dos esquemas religiosos da altura. É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objetivo. Uma experiência religiosa interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um delírio, mas é subjetivo. É preciso fazer esta distinção. E por isso digo que é necessário evangelizar Fátima, ou seja, trazer uma notícia boa. Porque mesmo para aquelas crianças, aquela não foi uma notícia boa: que mãe mostraria o inferno a uma criança?”

Christiana Martins, Expresso, 16 Abril 2017

 

 

Utopia

“Tzvetan Todorov (1939-2017) fez no ensaio aquilo que Camus fez no romance. Os seus ensaios faziam às ideias aquilo que Camus fazia às personagens, ou seja, impunha-lhes uma certa decência camusiana, que assentava neste princípio: o fim das utopias não legitimava o cinismo, não saltamos do 80 maximalista para o 8 minimalista; há um ponto intermédio – a decência – entre a overdose utópica e a amoralidade do cinismo.

O pensamento de Todorov até me faz lembrar Bernard Rieux, a personagem principal de “A Peste”: a inexistência de uma Humanidade una e bondosa não legitima o abandono dos homens concretos que sofrem à nossa volta. Este humanismo camusiano é bem evidente num dos grandes resumos do século XX, “Memória do Mal, Tentação do Bem” (Edições Asa).”

Henrique Raposo, Expresso, 11 Abril 2017

maria helena

“Morreu a mulher que aprendeu com os gregos que as coisas belas são difíceis.

Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017) foi durante décadas o rosto dos Estudos Clássicos em Portugal. Deixa uma obra vastíssima e um exemplo de determinação e rigor. As suas traduções das grandes tragédias gregas são uma referência, assim como os trabalhos que fez à volta da literatura portuguesa.”

Lucinda Canelas e Luís Miguel Queirós, Público, 10 de Abril de 2017

 

dissolver os factos

“Há uma característica curiosa no debate sobre a saída do euro. Os seus maiores defensores exigem que esse debate se faça mas ficam descontentes com qualquer argumento que não concorde com a conclusão que preferem. Eu concordo que este é um debate que tem de ser feito. Mas espero que os proponentes da saída concordem que ele só pode ser feito com todos os factos.

Carlos Carvalhas, ex-secretário-geral do PCP, respondeu à minha crónica de passada quarta alegando que “a saída de Portugal da zona Euro não implica a saída da UE” e citando um documento do BCE (“legal working paper” 10, de 2009) que, segundo Carvalhas, “prevê a possibilidade de um país sair unilateralmente do Euro”. Não é a mesma coisa. Basta ler o documento para ver logo na segunda frase que a saída do euro sem saída da UE seria “legalmente inconcebível” e na página 7 que esta seria legalmente impossível (no original: “withdrawal from EMU without a parallel withdrawal from the EU would be legally impossible”). Não fui eu que trouxe este documento para a discussão; podemos ao menos concordar que ele diz o contrário do que foi alegado por Carvalhas?

A razão por que é praticamente impossível sair do euro sem sair da UE é elementar: não existe nenhum “tratado do euro” de que se possa sair. Existe um Tratado da UE do qual se sai usando o agora famoso artigo 50. Esse tratado (mais um outro, sobre o funcionamento da UE) inclui o euro mas também incontáveis outras coisas, como a liberdade de circulação, os nossos direitos de voto ou o acesso a fundos europeus. Sair destes tratados é sair da UE, e tem inúmeras consequências para a vida de milhões de portugueses, cá dentro ou lá fora. Convinha que não o descobríssemos só no momento das negociações, graças a um “debate” de que os factos mais relevantes tivessem sido afastados com um encolher de ombros.

Uma segunda resposta à mesma crónica, desta feita por José Guilherme Gusmão, dirigente do BE, acaba implicitamente admitindo que Portugal sairia da UE ao usar como comparação a Noruega — país que não está no euro, nem na UE, mas no mercado único. Só que a Noruega tem de aceitar as regras do mercado único sem nelas ter direito de voto. E para o resto tem que pedir acordos que podem ser rejeitados pelo Conselho ou pelo PE. Como “recuperação de soberania” não é brilhante. Acrescente-se que Portugal não sairia da UE com os acordos que a Noruega negociou durante décadas. E tampouco sairíamos com o petróleo da Noruega, se é que isso não é evidente.

Gusmão alega também que o cenário que eu descrevi — estar fora do mercado da UE em caso de saída do euro — “configuraria um embargo comercial”. Eu não escrevi tal absurdo. O que configuraria é uma grande desvantagem comparativa para o nosso país no acesso aos nossos maiores clientes, e não só nas tarifas. Como nos pode explicar qualquer camionista que entregue, por exemplo, peças para a indústria automóvel, um dos grandes problemas de estar fora da UE está na burocracia e nos tempos de espera na fronteira que não se compadecem com as cadeias de produção atuais. Criar a Portugal uma desvantagem permanente em nome da vantagem temporária de desvalorizar a moeda pode não chegar sequer para compensar a saída.

Mas claro que depois de sair da UE e do euro, e de tentar renegociar a dívida numa posição de incerteza externa e divisão política interna, será facílimo convencer os outros países a darem-nos as vantagens de acesso entretanto abandonadas. Bastará para tal não esquecer que somos uma República soberana, como refere Gusmão. Pois somos, e ainda bem. Mas os outros também são estados soberanos. E é de acesso aos mercados dos outros, e de direitos de cidadãos portugueses nos territórios dos outros, que estamos a falar.

Como Gusmão bem sabe, sempre fui a favor de fazer este debate mesmo quando o então coordenador do BE achava que a saída do euro era um “projeto macabro” sonhado pelos ”idiotas úteis da senhora Merkel” (Expresso, 17/11/2011). Uma vez que nunca usei tal linguagem de chantagem e sectarismo, acolho qualquer diálogo que respeite a seriedade dos interlocutores. O que apresento aqui são factos. Ora a nossa soberania, que não prezo menos do que Carvalhas e Gusmão, ainda não nos permite dissolver os factos incómodos como se de uma varinha de condão se tratasse.”

Rui Tavares, Publico, 05 Abril 2017