Fatal e precário (4)

“Claro que existe fundamento bíblico para a doutrina da indissolubilidade, mas Lourenço prefere sublinhar a consciência de que a falibilidade é da ordem do tempo, ao passo que o cristianismo está contra o tempo ou além do tempo. O casamento é deste mundo, mas o cristão não é apenas deste mundo, e por isso precisa de uma instituição “idealmente eterna”. Uma instituição idealizada e por isso trágica. Para mais, escreve Lourenço, o casamento nem sequer é visto como uma solução óptima, o apóstolo Paulo, por exemplo, disse que é um mal menor, “mais vale casar-se do que abrasar-se” ”

Pedro Mexia, jornal Expresso, Atual, 16 Junho 2012, pág. 3

Fatal e precário (3)

“O casamento é uma realidade frágil, dissolúvel, e a Igreja sabe disso. Quando estatui que o sacerdote serve de “testemunha” na cerimónia nupcial, a lei canónica não está a penas a homenagear a natureza autónoma da conjugalidade, está também a emprestar à falibilidade natural do casamento uma garantia sacramental. É porque sabe que o casamento é solúvel que a Igreja o declara, por decreto, durável e definitivo.”

Pedro Mexia, jornal Expresso, Atual, 16 Junho 2012, pág. 3

Fatal e precário (2)

“Não há nada de “natural” no casamento, trata-se de ritualizar e institucionalizar uma troca e uma realidade biológica que, essa sim, é estritamente animal. O cristianismo procurou resolver a questão da sexualidade através do chamado “casamento indissolúvel”. É uma formulação antiga, mas que entretanto deixou de ser efectiva como crença, as pessoas, mesmo as crentes, mesmo as que casam “pela Igreja”, não acreditam em casamentos indissolúveis, e dedicam à “indissolubilidade” uma indiferença vaga e calada. Mas Lourenço assegura que é na “indissolubilidade” que reside toda a “questão do casamento. ”

Pedro Mexia, jornal Expresso, Atual, 16 Junho 2012, pág. 3

Fatal e precário (1)

“Segundo Lourenço, o “casamento-instituição” é um dos fundamentos da civilização ocidental cristã, um modo historicamente situado de responder ao “imperativo” da reprodução e da troca sexual. Não é por acaso que usa esse termo, “troca”, Lourenço conhece os estudos de Engels sobre a família, a definição de casamento como acto mercantil, e a própria linguagem bíblica que fala em “comércio” carnal.”

Pedro Mexia, jornal Expresso, Atual, 16 Junho 2012, pág. 3