As mulheres

“… porque razão nós as mulheres não somos felizes, quer dizer até podemos ser felizes mas não somos felizes felizes e muito menos felizes felizes felizes , também não somos infelizes, é um estado de alma assim assim que o facto de termos uma família vai compondo, uma família, a casa paga, os electrodomésticos pagos, tudo pago, …“

António Lobo Antunes, Crónica, revista Visão, 16 Agosto de 12, p. 8

Tempo de Fogo (4)

“Como vês, coisas de mulheres, muito mais capazes de entender a divina poesia do que a maioria dos brutamontes dos homens, Nunca acredites que elas sejam a encarnação do demónio, porque se alguém nos pode abrir algumas portas ou janelas do Céu são elas.”

Tempo de Fogo, Amadeu Ferreira, Âncora Editora, Lisboa, Junho 2011, p. 98

Tempo de Fogo (3)

“Desculpa por estar assim a sorrir, mas Deus não quer saber das línguas para nada, porque as línguas são coisas dos homens, embora seja a sua criação o ponto onde os homens mais se aproximam de Deus.”

Tempo de Fogo, Amadeu Ferreira, Âncora Editora, Lisboa, Junho 2011, p. 98

Tempo de Fogo (2)

“Explicar os males do mundo pela ira de Deus era como se Deus fosse contra ele próprio ao destruir as suas criaturas, que lhe tinham fugido da mão como a qualquer aprendiz de feiticeiro. De qualquer maneira, essa ideia de Deus era boa para os sermões, pois deixava toda a gente de rastos, desorientada como se estivesse a chegar o fim do mundo. ”

Tempo de Fogo, Amadeu Ferreira, Âncora Editora, Lisboa, Junho 2011, p. 90

Tempo de Fogo (1)

“O tio José Peres era dessa gente. De religião nada percebia, mas depois de muitos anos quase o convenceram de que era mesmo aquilo de que o acusavam. Acusavam-no em nome de um outro mundo, mas ele tinha era dificuldade para sobreviver neste. Nunca chegou a perceber.”

Tempo de Fogo, Amadeu Ferreira, Âncora Editora, Lisboa, Junho 2011, p. 87

O Ouro dos Corcundas (2)

“Foi ali, naquela rua escura e num breve instante, digerindo o golpe, que Vicente Maria compreendeu o erro cometido: como ousara roubar o maior ladrão de Lisboa, à luz do dia, em plena praça do Rossio? Era preciso ser muito louco ou muito estúpido. Não teve tempo para tomar uma decisão; um pontapé na cabeça enviou-o para o outro lado da consciência. Adeus, luzes, que se apagam as candeias.”

O Ouro dos Corcundas, Paulo Moreiras, Editora Casa das Letras, Lisboa, Outubro 2011, p. 117

O Ouro dos Corcundas (1)

“As mulheres é que lhe buliam com o fio-de-prumo. De entre os muitos defeitos de Custódio Braz, e aquele onde esturrava mais numerário, destacava-se a sua extravagante propensão para as putas, principalmente as da taberna do Pasquino, onde manifestava uma maliciosa e libertina inclinação por Tomásia – que de outra forma a não poderia ter nos braços -, ainda que já as tivesse corrido todas.”

O Ouro dos Corcundas, Paulo Moreiras, Editora Casa das Letras, Lisboa, Outubro 2011, p. 42

Tempos bárbaros (2)

Durante séculos da Alta Idade Média, os prédios de cinco andares da Roma Imperial, as águas correntes, os banhos, a cultura e ciência clássicas pareceram miragens do passado. Não quero dizer que seja esse o nosso destino, apenas pretendo que as curvas da História são muitas, desmentindo a ideia de linha reta de progresso. Claro que na Alta Idade Média e nos séculos subsequentes outros povos e civilizações progrediram, novos conhecimentos surgiram e a mobilidade social (por incrível que pareça) aumentou.

Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), além de muitos outros países como Angola, Colômbia ou Vietnam, aí estão cheios de pujança, em contraste com a nossa depressão colectiva.

Por cá, a crise instalou-se.

Durante anos e anos do século XX fomos matando os fundamentos da nossa própria civilização, da nossa cultura, do nosso próprio orgulho em ter construído um mundo melhor e mais justo. Como na História de Gibbon, olhamos para trás e temos saudades dos tempos em que fomos o farol do mundo.”

 

Henrique Monteiro, Tempos bárbaros, jornal Expresso, 21 Julho 2012, p. 40

Tempos bárbaros (1)

“A crise está para durar e, a cada corte, a cada diminuição de direitos, a cada machadada no Estado social, não vale a pena berrar que é um retrocesso. Claro que é!

Tínhamos perdido esta noção de ciclos, de avanços e recuos, confiantes de que a História era sempre para a frente … e para cima! Porém, o optimismo e a confiança que nos fizeram esquecer os altos e baixos da vida, está a finar-se. O Ocidente está na curva descendente – ontem mesmo o Governo britânico anunciou que a austeridade se pode prolongar até 2020 e, se não for até 2030 ou mais, será uma sorte – e vão passar-se uns tempos até que a situação estabilize, provavelmente noutro patamar.

Edward Gibbon, autor da famosa “A História do Declínio e Queda do Império Romano” (1776), reflectia sobre o facto de ser impossível um foco de desenvolvimento como Roma manter-se imune, quando rodeado de bárbaros famintos. Mudando o que há a mudar, (ou mutatis mutandis, como antes se dizia), o foco de desenvolvimento é a Europa e o Ocidente; os bárbaros (não tão famintos) são aqueles que vivem com taxas de crescimento assentes na mão de obra barata e na ausência de qualquer apoio social aos menos favorecidos.

Henrique Monteiro, Tempos bárbaros, jornal Expresso, 21 Julho 2012, p. 40

Camilo e Eça

“Poucos intelectuais gostam verdadeiramente de Camilo. Duma forma geral, opõem-se-lhe e preferem um outro romancista, seu contemporâneo, Eça de Queirós. Pessoalmente, eu gosto menos. Eça é um perfeccionista. A sua obra é mais equilibrada que a de Camilo, que tinha muitas vezes de escrever para ganhar a vida, que escreveu coisas formidáveis, mas que não trabalhava muito. A escrita saía-lhe de um jacto. Eça, pelo contrário, trabalhava as suas frases, mas não possuía a profundidade de Camilo. Reconhecia que lhe faltava, por vezes, assunto: “Sei escrever bem, mas o quê?””

Manoel de Oliveira, Conversas com Manoel de Oliveira, Editora Campo das Letras, Porto, Junho 1999

Autores: Antoine de Baecque e Jacques Parsi, Editions Cahiers du Cinéma, 1996