Os dias de Saturno

“Certo dia, em que o noviço estava sozinho de serviço à ucharia, o diabo espaventou-se por entre couves de nabo e braçadas de tronchudas e deu largas à sua pantominice, cerzindo o destino de ambos. A partir dali os encontros começaram a ser mais regulares até que o noviço adregou tomar Leonor nos seus finos e alvos braços. Agora estava o caldo esturricado.”

Paulo Moreiras, Os Dias de Saturno, Editora QuidNovi, Setembro de 2009, p. 13

Crise é fruto da desonestidade e ignorância

O presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, apontou hoje a desonestidade, a fraqueza de personalidade e a ignorância na política e na sociedade como três dos erros que levaram à crise que o país atravessa.

“Para Portugal chegar onde chegou tiveram de ser cometidos muitos erros. Por desonestidade, porque há pessoas que percebem estar a fazer mal, mas interessa-lhes fazer mal. Por fraqueza de personalidade, porque há quem perceba que tem de ser diferente, mas não tem força interior para combater o que acha que tem de ser combatido. E por pessoas que pensavam estar a fazer bem, mas eram ignorantes”, afirmou.

Para o autarca social-democrata, as responsabilidades são transversais à sociedade e não exclusivas da política.

“A responsabilidade disto não é só da política. Será, em primeiro lugar da política, mas não só. Uma fatia muito grande será de responsabilidade de muitos outros setores da sociedade”, explicou.

Sobre a fraqueza de personalidade, Rui Rio referiu que “muita gente sabia que estava a cometer erros sabia que as coisas tinham de ser feitas de outra maneira, mas a sua personalidade é fraca e não tem força para contrariar aquilo que sabem que está a ir no mau caminho”.

Para o edil, nesses casos as pessoas “às vezes não têm sequer a força de apoiar aqueles que procuram que as coisas vão no caminho certo”.

Além disso, acrescentou, “muita gente cometeu muitos erros, levou o país a esta situação, por manifesta ignorância, por não perceber sequer o mal que estava a fazer”.

De acordo com o autarca, a existência de “países melhores do que outros” não é obra do destino.

“As razões têm de estar em nós. Uma delas é a excelência e o rigor. É isso que não conseguimos como outros conseguem”, disse.

Rui Rio, Expresso on line, 12 de Outubro de 2012

Sair do euro

A medida do fracasso do euro vê-se no facto de só no interior da Zona Euro a desvalorização cambial ser vista como uma ameaça existencial. Só aqui essa coisa tão corriqueira, que acontece todos os dias (do próprio euro contra o dólar, da libra contra o iene…), é vista como o fim do mundo. Não pode estar bem feito.

O consenso sobre a permanência de Portugal no euro só se manterá enquanto as consequências do seu abandono forem vistas como piores do que as da permanência. Ora, cada vez mais a austeridade delirante em que nos vamos enfiando dá a entender que os custos se parecem muito uns com os outros.

Mas convém manter a cabeça fria. Sair do euro poderá vir a revelar-se a menos péssima das soluções, mas continuará a ser péssima. E continuará a exigir uma liderança política sóbria, que nos guie pelo meio da tempestade que se seguiria.

As duas grandes possíveis vantagens da saída seriam: uma recuperação rápida de competitividade, impossível no contexto actual, e a saída da terrível máquina de destruição de democracias em que a Zona Euro se transformou. Fora isto (que é muito), seria ainda sangue, suor e lágrimas.

Luciano Amaral, Mal por Mal, Correio da Manhã, 12 outubro 2012