À caça das borboletas

“Un bon petit diable à la fleur de l’âge
La jambe légère et l’œil polisson
Et la bouche pleine de joyeux ramages
Allait à la chasse aux papillons

Comme il atteignait l’orée du village
Filant sa quenouille, il vit Cendrillon
Il lui dit : “Bonjour, que Dieu te ménage
J’t’emmène à la chasse aux papillons”

(…)

George Brassens, “La chasse aux papillons”, 1953, re-edição BMG France, 2003

Vale Abraão

“Eduardo Prado Coelho, num artigo que escreveu a propósito da estreia do filme Vale Abraão de Manoel de Oliveira, considera importante a revelação ao espectador de que “o bovarismo é o vago desejo de querer outra coisa sem se ser capaz de imaginar a coisa que se quer – e isso mata. O bovarismo, para Prado Coelho, não é tanto, então, esse desejo de se querer ser outra coisa que se não é, mas mais o não se saber o que se quer ser. E é essa indefinição que lhe dá o seu carácter trágico, de perdição.

O bovarismo da heroína flaubertiana constitui a revolta individual contra o espírito de conformismo imposto pela sociedade, a qual, em nome de uma moral dominante, veda o acesso aos desejos.”

Eduardo Prado Coelho – “Manoel de Oliveira”. Público, 11 de Junho de 1993, citado por Célia Maria Sousa Lopes, na Tese de Mestrado, “O Bovarismo ou a busca do absoluto no filme Vale Abraão de Manoel de Oliveira” , Universidade Aberta, Dezembro de 2010, pag 17

Correntes d’Escritas

“A latitude, o clima, os meios são diferentes; mas as Correntes d’Escritas são o nosso pequeno Festival de Paraty, o nosso modesto Hay Festival.

Durante estes dias, até domingo, a Póvoa de Varzim continua a ser a cidade dos autores e dos leitores, repetindo um ritual de dezena e meia de anos. As Correntes, é necessário dizê-lo, foram até agora um extraordinário veículo de promoção da cidade no espaço ibero-americano e é de supor que cada escritor, cada editor ou leitor presente nos seus debates, visitas a escolas e bibliotecas, conferências e noitadas, se transformou também em admirador deste trabalho anual. Este ano, o orçamento é ainda mais reduzido – mas o programa mantém a vivacidade de outros anos e, acredita-se a afluência de público que foi pertencendo, gradualmente, a esta família diligente e dedicada a promover a literatura de expressão ibérica ou latino-americana e africana.”

Francisco José Viegas, Correio da Manhã, 21 Fevereiro 2013

Vitorino Nemésio

Passam hoje 35 anos sobre a morte de Vitorino Nemésio (1901-1978). A data devia servir para, nas escolas (por exemplo), relembrar o homem de letras, o notável poeta, o escritor, o mestre – e o autor do mais belo, completo e marcante romance português do século passado, ‘Mau Tempo no Canal’, um prodígio de beleza, paisagem, humanidade e gente desenhada com o talento inimitável de um grande autor.

Se houvesse juízo e decência, a televisão pública já tinha produzido uma telenovela de primeira ordem a partir de ‘Mau Tempo no Canal’, com o cenário belíssimo do Faial (com a Horta de outrora, de sempre) e do canal do Pico e São Jorge, além dessa galeria de personagens inesquecíveis (a deslumbrante Margarida, os Clarks, os Dulmos, os Garcia, os Bana, os Peters, os baleeiros) desenhados com a perfeição de Nemésio. A arte de Nemésio e a sua obra mereciam gente com mais memória.

Francisco José Viegas, Correio da Manhã, 20 Fevereiro 2013

Fernando Pessoa e José Afonso

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada.
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada…

No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
De Cruz Quebrada a Palmela…

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão

Letra de Fernando Pessoa, música de José Afonso, do álbum “eu vou ser como  a toupeira”, Orfeu, 1972

Pequenos cantores

Aconteceu no Parlamento: o primeiro-ministro discursava e um grupo de ‘manifestantes’, composto por celebridades avulsas de esquerda, começou a cantar o ‘Grândola, Vila Morena’.

Felizmente, e tratando-se de Passos Coelho, pelo menos ninguém cedeu à piadola fácil de cantar um tema das Doce. Porquê Zeca Afonso? A porta-voz do número, Paula Gil, explicou: porque é o povo quem mais ordena. Precisamente. E o mais espantoso é que não houve um único jornalista que lhe tenha devolvido o refrão: e não seria aquela Assembleia a expressão democrática da escolha popular? Exactamente ao contrário do que sucedia antes do 25 de Abril? Ou a democracia só é boa quando ganham os ‘nossos’, em imitação perfeita do pensamento autoritário de Salazar? Ao abusarem de símbolos ‘antifascistas’, estes pequenos cantores apenas banalizam a ditadura e insultam a democracia.

João Pereira Coutinho, jornal Correio da Manhã, 17 Fevereiro 2013

Padre António Vieira

Hoje é o dia do aniversário do Padre António Vieira (1608–1697): 405 anos. Uma data assim deve ser comemorada independentemente dos números redondos porque Vieira é um dos pais fundadores da nossa língua.

Frequentemente dizemos ‘a língua de Camões’, mas, para sermos totalmente honestos, ninguém a dignificou mais, ninguém a usou e engrandeceu mais do que Vieira. Será a nossa, pois, ‘a língua de Vieira’ (e a de Pessoa, a de Cesário, a de Camilo, porque um pai fundador precisa de discípulos à altura): a sua prosa, os seus versos, as suas longas e belas cartas, os seus sermões grandiosos. E o seu visionarismo, a sua filosofia, a sua procura de fidelidade – que merecem ainda mais estudos.

Um país que tem à sua disposição um criador como Vieira devia proteger a língua em que ele escreveu e divulgá-lo mais junto dos seus. Talvez, mesmo, seguir um pouco do seu exemplo (tolerância, ironia e coragem).

Francisco José Viegas, jornal Correio da Manhã, 6 Fevereiro 2013

Perceber para que serve a literatura

“Daria a minha mão esquerda (só a esquerda de modo a poder continuar a escrever) para ter escrito o Heart of Darkness (O Coração das Trevas), do Conrad. Um gajo acaba de ler e percebe para que serve a literatura.”

“Depois há outros pelos quais não podíamos dar a mão porque não poderíamos escrevê-los: A Ilha do Tesouro, do Stevenson, por exemplo.”

“(E portugueses?) O Em Nome da Terra, do Vergílio Ferreira, um texto inacreditável. Como em certo sentido o Sinais de Fogo. Embora Sinais de Fogo seja um livro inacabado.”

António Mega Ferreira, revista LER, Fevereiro 2013, pág. 25 e 26

Mil anos de guerras

“A Europa são mil anos de guerras. Agora, com algumas excepções, em termos do Ocidente e sobretudo da Europa, há um período de paz que já dura há sessenta e tal anos. Isso é efectivamente a excepção.“

António Mega Ferreira, revista LER, Fevereiro 2013, pág. 27