Para que serve a filosofia?

“Finalmente, ao final da tarde, numa nota mais leve, mas nem por isso menos atual, estive a ouvir Gilles Lipovetsky, um filósofo francês convidado pela Fundação Gulbenkian e apresentado por Manuel Maria Carrilho. Foi extremamente refrescante ver Lipovetsky explanar sobre os novos paradigmas do individualismo, sobre a sociedade de hiperconsumo e sobre a preeminência absoluta do mercado no nosso quotidiano.”

Francisco Seixas da Costa, blog “duas ou três coisas”, 24 Março 2011

sou do tamanho do que vejo

“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.”

Fernando Pessoa / Alberto Caeiro

falar mal da tropa

“Sempre me irritou ouvir falar mal da tropa: a melhor recompensa que recebi na vida consiste no amor dos meus soldados, na estima dos oficiais com quem privei. Em Angola, o Melo Antunes era adorado e respeitado. Pela sua autoridade natural, pela sua alma generosa e, perdoem-me a má criação, pelos seus colhões.”

António Lobo Antunes, 23 de Novembro de 2012, portal da revista Visão

Nada será como dantes

Ora essa normalidade é uma ilusão. A historiadora Fátima Bonifácio diz hoje, numa entrevista ao ‘Público’, algo que subscrevo inteiramente:  “Nada mais será como dantes. As pessoas pensam que passando a crise – chamemos-lhe assim, pois é mais do que uma crise – se volta a uma coisa parecida com o que havia antes. Nem pensar.” E acrescenta: “Nunca mais haverá o statu quo ante. E não é só em Portugal. É na Europa”.”

“Seja como for, a ideia de que em 2016 estaremos com uma tranquilidade política igual – já não digo à de 2001 ou 2006 – à de 2011 é lunático. E é não perceber, de facto, o que se está a passar.”

Henrique Monteiro, Expresso on line, 11 Março 2013

modelo de negócio

“Com o euro devíamos ter mudado a forma de pensar e agir, Ora, o que eu verifico é que isso não aconteceu e a mentalidade dominante nos agentes políticos, económicos e sociais continua a depender da inflação para reconciliar a inconsistência das suas escolhas.”

“… Temos que perceber que o “modelo de negócio” do regime político mudou. Já não é possível prolongar o modelo de venda de promessas a crédito. O modelo vai ter de ser muito diferente e vamos ter de acumular saldos primários orçamentais durante muitos, muitos anos. A classe política, com poucas excepções, não está preparada.”

Vítor Bento, entrevista jornal Publico, 8 Abril 2013, pág. 11 e 12

À espera de godot

“À Espera de Godot é uma história sobre “dois gajos que estão à espera de outro que nunca mais chega”. É assim que Gregory Mosher, um importante encenador Beckettiano, resume Godot. E continua, dizendo que “o que faz de Beckett tão poderoso é exactamente a sua habilidade para condensar a experiência de um século apocalíptico dentro de uma história simples. Ele comprime o universo num átomo, que depois explode na nossa imaginação”. Em À Espera de Godot espera-se por nada e esse nada, é o que de facto existe. O resto, o tudo, são as palavras, as coisas e as pessoas para as quais (e de quais) elas falam. E essas são o que são. Estão lá e existem por si só. Servem para realçar o contrário. Servem para dar sentido ao medo que sentimos quando não sentimos o sentido das coisas. Servem para nos lembrar de que entre elas (e entre elas e as coisas) existe esse enorme e poderoso vazio, cheio de tudo e de nada, que desconhecemos e imaginamos, que antecipamos e receamos e que, inútil e insistentemente, procuramos compreender.””

texto de João Fiadeiro, retirado do arquivo do portal de “artistas unidos” em 24 Fevereiro 2013

Alexandra Leaving

“Suddenly the night has grown colder.
The god of love preparing to depart.
Alexandra hoisted on his shoulder,
They slip between the sentries of the heart.

Upheld by the simplicities of pleasure,
They gain the light, they formlessly entwine;
And radiant beyond your widest measure
They fall among the voices and the wine.”

(…)

Cohen returned to music in 2001 with the release of Ten New Songs, featuring a heavy influence from producer and co-composer Sharon Robinson. The album, recorded at Cohen’s and Robinson’s home studios, includes the song “Alexandra Leaving”, a transformation of the poem “The God Abandons Antony”, by the Greek poet Constantine Cavafy.

wikipedia.org/wiki/Leonard_Cohen, 24th February 2013

No forte

“Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa”

José Afonso “Venham mais cinco” 

[tema composto no Forte de Caxias]

 

a realidade inconstitucional

“O Estado Social depende da riqueza produzida pela sociedade e não de leis que procuram garantir juridicamente aquilo que não tem garantia jurídica possível. Seja qual for a sua Constituição, uma sociedade só pode criar e manter um Estado Social se gerar riqueza e renovação geracional. As liberdades políticas, civis e religiosas, sim, podem ser defendidas juridicamente, porque não dependem de qualquer condição material. Mas os direitos sociais só podem ser defendidos através da criação de riqueza e da revitalização demográfica. Isto não é matéria de opinião.

As Constituições não criam riqueza, só criam liberdades. Dizer o contrário é entrar em falácias que não levam a lado nenhum, ou melhor, levam à bancarrota. Três vezes em menos de 40 anos, para sermos exactos. Mas, como é óbvio, este baixo mundo da matéria não interessa à nação constitucionalíssima.”

Henrique Raposo, expresso on line, 4 de abril de 2013

As marés não dormem

“Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.

A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu

estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.”

Maria do Rosário Pedreira, poemas, blogue estúdio raposa