Orca, Fundão

“Têm em comum o amor pela agricultura “limpa” e biológica – além do facto de todos se terem apaixonado pela pequena aldeia da Orca, no Fundão. Nasceram em sítios tão distantes como a China ou as Filipinas, a Inglaterra ou o Irão. E vieram para ficar: querem formar uma cooperativa agrícola para exportar os seus produtos (…)”

Os estrangeiros “verdes” da Cova da Beira, revista Visão, nº 1063 de 18 Julho 2013

Perceber do assunto

“Imagine-se que, quando Cavaco Silva lançou o desafio para um acordo de salvação nacional, Seguro declarava:

“Consolidou-se nos partidos extra coligação, nas confederações dos patrões e nas centrais sindicais, e ainda nas igrejas e na maioria esmagadora da sociedade civil, que é inadiável renegociar os termos do Memorando de Entendimento – em prazos, em metas, em taxas, em maturidades. E por isso, o PS aceita o desafio do Presidente, desde que o estabelecimento do acordo seja precedido de negociação tripartida, PSD/PS/CDS, primeiro com o Conselho Europeu, depois, para acerto técnico, e ao mais alto nível, com a Comissão Europeia, o BCE e o FMI. Sem isso, é inútil negociar um acordo que pressupõe uma política que o seu mais direto executor, Vítor Gaspar, reconhece ser um completo fracasso.”

Tivesse dito isto, e teria sido a isto que os manifestos dos parceiros sociais e dos notáveis se teriam dirigido. Tivesse dito isto e poderia ter mandado calar Alegre e Soares. Tivesse dito isto e teria o PS. Mas mais e sobretudo: era a esperança a renascer.”

O erro de Seguro, O Avesso e o Direito, Magalhaes e Silva, advogado, Correio da manha online, 21 julho 2013

 

Como é que aqui chegámos?

“Uma vez que o Presidente da República fala hoje à noite, mesmo a tempo de ser comentado pelo professor Marcelo e pelo engenheiro Sócrates, convém trazer à memória de onde vem esta crise.Quando começou? É um mistério! Se nos referirmos á última que conhecemos foi inegavelmente com a demissão do professor Gaspar e a birra do doutor Portas. Mas se nos interrogarmos de onde vêm essa demissão e essa birra, teremos de ir mais atrás.

E vamos.

1) Portugal chegou tarde e a más horas à construção do Estado Social, culpa do Estado Novo que negou, além da liberdade, direitos essenciais;

2) No PREC, vários direitos a que não correspondiam quaisquer deveres foram estabelecidos e constitucionalizados com o voto do PSD e do PS.

3) Em 1978, perante o descalabro financeiro ( o Governador do Banco de Portugal telefonava ao primeiro-ministro a dizer que no dia seguinte não havia dinheiro) o FMI foi chamado para ajudar o país a re-entrar nos eixos; havia um Governo PS/CDS que acabou prematuramente, seguiram-se governos de iniciativa presidencial;

4) Quando o atual Presidente foi ministro das Finanças do Governo Sá Carneiro (AD), interrompeu a política da desvalorização progressiva do escudo (desenhada, entre outros, por um senhor que foi prémio Nobel, Paul Krugman) para fazer o que se costuma chamar “política de bacalhau a pataco”.

5) Em 1983, a coligação PS/PSD foi obrigada a chamar o FMI de novo. Houve medidas duras, fome, desemprego e salários em atraso;

6) Em 1986 Portugal entrou na então CEE, atual União Europeia. Foi o 11º país (a Espanha entraria no mesmo dia, compondo a Europa dos 12). Hoje são 27 ;

7) Em 1987 o país teve o primeiro Governo de maioria absoluta, com Cavaco e o PSD; com o dinheiro da Europa, não houve estratégia para o país salvo… obras públicas. A política das obras permite duas coisas importantes para os partidos – movimentar milhões de euros e criar emprego rápido. Uma segunda vertente foi aumentar o número de funcionários públicos e os seus salários, como forma de comprar paz social.

(…) quis colocar o país no que chamava “o pelotão da frente”. O Governo que o substituiu, do PS com Guterres, não tinha maioria, mas governou quatro anos. A ideia fundamental desse Governo foi… fazer mais obras (acabar e concretizar as que vinham de trás, como a EXPO 98, e fazer o célebre Euro 2004 com 10 estádios) e… aumentar o número de funcionários públicos.

9) Guterres consegue um empate no Parlamento em 1999. Sem maioria, consegue entrar no Euro logo no início, em 2002  (o tal “pelotão da frente”), mas demite-se pouco depois. É substituído por um Governo PSD/CDS que Governa entre 2002 e 2005 (termina já com Pedro Santana Lopes, depois de Barroso ir para Bruxelas), avisando que o país estava “de tanga” e que ia reformar o Estado. Nunca o fez. Mas aumentou os impostos e o Euro 2004 com 10 estádios correu lindamente, embora Portugal perdesse a final.

10) Santana cai porque o então Presidente, Jorge Sampaio, dissolve o Parlamento. Nas eleições, o PS ganha as eleições com maioria absoluta.

11) O Governo Sócrates avisa que vai reformar o Estado e reequilibrar as contas públicas. Mas a principal ideia é fazer… obras públicas. Há auto-estradas para todos os gostos, prevê-se um aeroporto novo e avança-se para o TGV. Ainda assim, com menos linhas do que tinha previsto Barroso. De qualquer modo, aumenta os impostos, nomeadamente o IVA.

12) A crise financeira de 2008 coloca a nu a irresponsabilidade económica do Estado português (o PIB não chega a crescer 1% em média nessa década) e a loucura de certa banca – v.g. BPN, BPP, etc. O Governador do Banco de Portugal de então (atual vice do banco Central Europeu), Vítor Constâncio não deu por nada. Mesmo assim, e apesar da crise, em 2009, sendo ano de eleições, o Governo de Sócrates aumenta substancialmente os funcionários públicos. Depois é obrigado a uma série de Planos de Estabilidade e Crescimento, que foram trazendo cortes salariais, aumentos de impostos e austeridade. Ao quarto plano, o Passos Coelho achou que podia fazer diferente e não permitiu que o PEC fosse aprovado. Sócrates chama a troika (FMI, BCE e UE),  demite-se e o PSD ganha as eleições e faz uma coligação com o CDS.

13) Este é o atual Governo. Ao contrário dos outros sabe que não tem dinheiro para fazer obras públicas nem para comprar a paz social com aumentos de salários. Como esse parecia ser o desígnio nacional, não podendo fazer isso, não sabe o que fazer, exceto aumentar impostos (só IVA aumentou quase 50% desde de 2002; na restauração o aumento foi de quase 100%).

14) Os partidos aqui mencionados a partir de 1976 informaram-nos ontem que tinha perspetivas substancialmente diferentes sobre o país.

Perceberam?”

Reportório da crise, Henrique Monteiro, Expresso on line, 21 Julho 2013