Absorto

Às vezes sabes

Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?

Ruy Belo

No fim

“Quando eu morrer batam em latas,

Rompam aos saltos e aos pinotes,

Façam estalar no ar chicotes,

Chamem palhaços e acrobatas!

 

Que o meu caixão vá sobre um burro

Ajaezado à andaluza…

A um morto nada se recusa,

Eu quero por força ir de burro.”

 

Mário de Sá Carneiro

Acreditar cegamente

“A diferença fundamental entre Direita e Esquerda é que a Direita acredita cegamente em tudo que lhe ensinaram, e a Esquerda acredita cegamente em tudo que ensina.”

Millor Fernandes, citado por Jornal de Negócios, 9 Agosto 2013, pag 23

Resistir sempre

É certo que o grande Hugo Claus escreveu um livro com o título ‘A Tristeza dos Belgas’ e a canção ‘Le Plat Pays’, de Jacques Brel, acrescenta ainda mais melancolia à descrição do país.

Mas talvez isso não constitua desculpa para o destemido ato da vereadora e vice-presidente da câmara de Hoeilaart (na Flandres), Els Uytterhoeven: ter sido filmada a utilizar as instalações municipais para praticar sexo e adultério.

Creio que é o único crime de que pode ser acusada. Nós, no sul, temos as nossas próprias ideias sobre a vida privada e os costumes – pouco nos escandalizamos. Há tempos, a autarca de Alost (também na Flandres), Ilse Uyttersprot, sofreu a mesma desventura: foi filmada a ter sexo nas muralhas de um castelo, mas bem fora da sua jurisdição (em Navarra, Espanha).

Isto diz-nos que nem tudo está perdido e que devemos manter a nossa esperança na Bélgica e na Flandres.

Há gente que resiste.

Francisco José Viegas, Correio da Manhã, 09 Agosto 2013

A Primeira República

“Até no café já ouvi a comparação, pois, pá, isto está tal e qual como a I República, o caos entre partidos, um regime desorganizado, dissolvente, sem rumo. Ora, vamos lá com calminha, vamos lá ver se nos entendemos: a I República tinha um rumo, era o rumo autoritário dos republicanos de Afonso Costa, o rumo ditatorial do Partido Democrático, a União Nacional daquele tempo. Por outras palavras, não existe qualquer semelhança entre o regime chavista de Afonso Costa e a nossa III República. Com todos os seus defeitos, a nossa democracia pós-82 está dentro dos padrões europeus. Aquilo que ficou conhecido pelo eufemismo de “I República” era um regime autocrático fora dos padrões das democracias europeias da época.

Ao contrário do que reza a lenda republicana e soarista, a I República não deu o sufrágio universal aos portugueses. Aliás, a Monarquia foi mais democrática do que a República. Nos primeiros anos, Afonso Costa manteve o sufrágio censitário herdado da Monarquia (o normal na época), mas em 1913 cortou para metade o número de eleitores. Além disso, convém registar que as eleições da I República não eram muito diferentes das eleições no Estado Novo. Para assegurar o resultado certo, o Partido Democrático colocava capangas junto das urnas. E na questão da liberdade de imprensa? A nossa Monarquia foi um dos regimes mais livres de toda a Europa. Durante décadas, os republicanos tiveram liberdade total para fazerem comícios e publicarem pasquins anti-Monarquia. Ao invés, o Partido Democrático atacou violentamente a liberdade de imprensa. De forma rotineira, os capangas da “formiga branca” vandalizavam as sedes dos jornais inimigos do partido.

A I República foi um regime de partido único. Não foi um regime inclusivo, não foi o chão comum constitucional e democrático para todas as facções. Pelo contrário, foi o veículo que uma facção usou para humilhar as outras facções. Se querem comparar, comparem a I República com o Estado Novo e a nossa III República com a Monarquia Constitucional.  Sim, o regime mais parecido com a nossa democracia é a Monarquia Constitucional. Não por acaso, os poderes do Presidente são parecidos com os poderes do Rei. Tal como o monarca, o Presidente é o árbitro do regime. Tal como o Rei de outrora, o Presidente de hoje tem poderes vastos mas imprecisos, poderes demasiado dependentes do perfil pessoal do detentor do cargo. Na minha modesta opinião, esta imprecisão foi uma das causas da queda do constitucionalismo monárquico em 1910. Como será agora?”

Henrique Raposo, expresso on line, 18 de julho de 2013 

Mandela

“Eu estava com o repórter fotográfico António-Pedro Ferreira, o meu amigo Tó-Pê, num clube de jazz em Joanesburgo. Mandela tinha sido libertado há pouco, De Klerk ainda era o presidente da África do Sul, mas o apartheid desmoronava-se aos poucos.

No palco, um conjunto de cinco ou seis elementos tocava standards; à volta das mesas jovens brancos e negros bebiam e ouviam – mas separados, brancos numas mesas, negros noutras. De repente, os músicos tocam What a Wonderful World e o vocalista, imitando Louis Armstrong o melhor que sabia, falava sobre as árvores verdes, as rosas vermelhas, as nuvens brancas o céu azul e o abençoado brilho do dia. E nesse momento mágico uma jovem branca, loura levanta-se da mesa dá dois passos e convida um jovem negro para dançar.

Ele levantou-se e aceitou. E enquanto os dois dançaram o mundo era maravilhoso, os músicos geniais e todos nós vivemos uma espécie de epifania. Eu e o Tó-Pê chorámos (ele autorizou-me a confessar isto). E todos naquela sala, que nos misturámos de imediato, pensámos, talvez erradamente, que o mundo era mesmo maravilhoso e dali em diante o mal terminaria.

O que foi a queda do muro de Berlim na Europa, foi em África a libertação de Mandela, o homem que sofreu todas as humilhações sem nunca clamar vingança. E esta cena, que para mim é a minha queda do muro (o António Pedro já a tinha visto, também, em Berlim) foi uma das mais belas coisas que o jornalismo me deu e ainda hoje, 23 anos depois, me comove e me diz que a minha vida valeu a pena.”

Henrique Monteiro, expresso online, 30 de junho de 2013


Vozes ibéricas

“Sílvia Pérez Cruz é, neste momento, uma das artistas mais acarinhadas pelo público e pela crítica de Espanha.
Depois de um percurso no seio de grupos como Las Migas (flamenco) e Javier Colina Trio (jazz) e de vários discos gravados em parceria, editou em 2012 o seu primeiro disco a solo – 11 de Novembre – com voz, guitarra, composições e parte das letras da sua autoria. Neste espectáculo revela-se uma voz que não serve apenas a bela língua da sua Catalunha natal, mas também o castelhano, o galego, o português, as grandes línguas da Península Ibérica e as suas tradições musicais, do flamenco ao fado, bem como as músicas de lugares para onde os povos peninsulares viajaram, como Cuba e Brasil.”

Palcos, RTP2, 29 Junho 2013

A europa rica

“Mas a Europa rica, mesmo em crise, não abdica de um mês de Agosto de boa vida. É esta ainda a medida da sua riqueza e das maravilhas do seu Estado social.

Como a chanceler alemã costuma dizer, a União Europeia representa hoje 7% da população mundial, 25% da riqueza produzida no mundo e 50% do gasto global com os apoios sociais.”

Teresa de Sousa, O nosso querido mês de Agosto, Público, 28 julho 2013, pag 54

 

Os Sopranos

“Os Sopranos não é a minha série favorita (The Wire e Mad Men levam a taça), mas esta foi a série que revolucionou a TV, porque trouxe qualidade literária para o pequeno ecrã. Os Sopranos tem o fôlego de um grande romance. Este sopro operático está presente, claro, na dimensão lendária de Tony, mas também é visível na forma como a série elabora um fresco da sociedade americana do início do século XXI. É por isso que Tony Soprano é a némesis de Vito Corleone. O Padrinho é a saga da ascensão de uma família que representa o lado negro da ascensão fulgurante dos EUA na primeira metade do século XX. O cenário dos filmes de Coppola é uma sociedade agitada, laboriosa, com força vital. Os Sopranos, ao invés, é uma obra marcada pelo cansaço de uma América desvitalizada, uma nação que gasta sem produzir. Em 1999, Tony começou a série a dizer “costumávamos fazer coisas neste país e agora não fazemos nada”. Se a minha memória não me falha, Tony fechou a série em 2007 a dizer a mesma coisa. Em 2008, rebentou a crise que ainda simboliza o declínio relativo dos EUA. “

Henrique Raposo, Expresso on line, 21 de junho de 2013

Claudio Magris

“Porque a obra de Magris, que é este ano galardoado com o Prémio Helena Vaz da Silva para a divulgação do Património Cultural, atravessa todas essas pontes e é um manifesto silencioso e permanente contra a ingratidão.

O termo é de Alain Finkielkraut: a ingratidão contra a história, a memória, as ruínas, o horror e a ignorância.

‘Danúbio’, de Magris, que é a obra de uma vida, um livro inimitável (só ‘Breviário Mediterrânico’, de Predrag Matvejevitch se lhe aproxima), descreve uma Europa como ela seria sem a destruição de cultura.

Cultura, precisamente, não é espetáculo. O espetáculo é, precisamente, o que destrói a história e a transforma em banalidade.

Claudio Magris é um dos combatentes contra esse ruído da moda.”

Francisco José Viegas, Correio da Manhã, 24 Julho 2013