Até a Holanda

“Já uma vez escrevi que as análises de Jorge Almeida Fernandes no ‘Público’ são uma razão mais do que suficiente para ler atentamente tudo o que este jornalista escreve (adianto que o não conheço pessoalmente, nem temos qualquer tipo de amizade ou cumplicidade).

Hoje queria reafirmá-lo pela análise cuidada que ele faz de um facto que passou quase despercebido entre nós, embora tenha mais de um mês: o discurso da coroa holandesa, que como todos os discursos das coroas democráticas são escritos pelos respetivos Governos.

O Governo holandês resulta de uma coligação entre liberais e sociais-democratas da qual os democratas-cristãos quiseram ficar de fora. Apesar de ser, deste modo, um governo mais para o centro-esquerda, apesar de a Holanda ser um pequeno país comercial rico e uma das nações com maior tradição democrática na Europa (no que se batem ombro a ombro com o Reino Unido), o Governo afirmou, pela boca do novo rei que o clássico Estado do bem-estar já não é sustentável, sobretudo em matéria de saúde e pensões de reformas.

Claro que todo o sistema social holandês é muito mais generoso do que o nosso, mas a verdade é que não temos nada que se compare com a Philips, com a Shell ou com a Lever (além de muitas outras grandes empresas) para comparar. Assim o rei pediu aos holandeses que se adaptassem aos tempos que se avizinham.

A notícia podia ficar por aqui se Jorge Almeida Fernandes fosse um dos jornalistas que se fica pelo normal. Mas ele vai sempre mais longe e, por isso, com a devida vénia, sigo as reações que ele compilou. No El País, um politólogo – José Ignacio Torreblanca – além de considerar esta uma possível notícia do ano disse: “se os holandeses que são um paradigma de riqueza, eficiência e democracia, e se movem como peixes na água da globalização, declaram defunto o modelo social europeu, que esperança nos resta, a nós que vivemos em países economicamente falidos, sistemas políticos disfuncionais e sociedades mais fechadas ao exterior?”.

O jornalista do ‘Público’ – um dos poucos fundadores que lá resta, depois de 20 anos de jornal – dá conta de várias outras reações e não é minha intenção macular (e menos plagiar) o seu texto. Mas mesmo assim, não resisto a citá-lo noutro ponto: “O contrato intergeracional está ameaçado de rotura. A resistência à reforma é a mais rápida via para o colapso. E mesmo reduzindo e racionalizando, o sistema não será sustentável sem crescimento (…) o mito do trabalho fixo para toda a vida é uma fábrica de desemprego e um meio de segregar os jovens”.

Brilhante!

A UE – sublinha – representa apenas 7% da população mundial, gere 25 por cento da riqueza do mundo e gasta metade da despesa social de todo o mundo. E cita a fórmula 7-25-50, algo que achei deveras interessante. Mas muito preocupante se junta a esta notícia: a Europa está a estagnar quando os outros países crescem.

E é aqui que chegamos ao menino Jesus. É que apesar de 48% dos portugueses saberem que nos próximos 10 anos o país não vai conseguir manter o SNS e um serviço público decente de educação, e de 55% pensar que vai perder pensões de reforma, 59% pensa (embora só 36% tenha esse dado como adquirido) que – cito – “greves e manifestações são o mais eficaz meio de defender o Estado Social”.

Jorge Almeida Fernandes acha que os portugueses são realistas (presumo que os primeiros), e acreditam no menino Jesus (os últimos). Eu penso que, sendo provavelmente verdade, há aqui um caso mais patético: a liderança portuguesa recusa-se a falar verdade. Recusa-se ao discurso que o Governo holandês produziu. Passos, Portas, Seguro e Cavaco não têm a coragem de dizer: não podemos continuar assim. É por isso mesmo que precisamos de uma reforma do Estado e de um acordo amplo entre os partidos democráticos, antes que os eurocéticos, os extremistas e os protecionistas tomem a dianteira (o que mesmo na Holanda não está assim tão longe). Isto, haja segundo resgate, haja programa cautelar, haja o que houver.

Mas parece-me que os dirigentes portugueses preferem que todos acreditemos no menino Jesus. Quem sabe se eles próprios não esperam um milagre…”

Henrique Monteiro “Passos, Portas, Seguro, Cavaco e o menino Jesus”, expresso on line, 28 de outubro de 2013