mandela e obama

“O momento, hoje, não era dos cínicos, avisou Obama. Ele próprio recuperou a sua dimensão histórica, ensombrada ou esquecida pelas vicissitudes próprias de quem governa o país mais poderoso do mundo. Nenhum outro Presidente americano poderia ter estado ali, naquele estádio onde o mundo se despediu de Mandela, com a distinção que lhe foi concedida. Obama não seria o que é sem a figura inspiradora de um homem que foi capaz de estender a mão aos inimigos e tornar-se, ao fazê-lo, um exemplo que a humanidade abraçou.

A mão que Madiba estendeu a Frederik De Klerk não teria, porventura, sido apertada, se outro homem, antes dele, não tivesse tido a coragem de “descongelar” o mundo. Talvez apenas Gorbatchov se possa comparar com ele. O que os dois fizeram, por caminhos distintos, foi alterar o curso normal da História, impedindo que a queda do império soviético e o fim do apartheid conduzissem a um banho de sangue. Ninguém como eles, nos anos finais do seculo XX, provou até que ponto um homem pode alterar o rumo inevitável dos acontecimentos. Churchill e Roosevelt foram “gigantes políticos” mas o mundo em que viveram apenas considerava metade da humanidade. A única homenagem fúnebre que reuniu um número semelhante de figuras mundiais foi, provavelmente, a que foi prestada a João Paulo II, o primeiro Papa universal que, um dia, desafiou os polacos a “não terem medo”, desferindo o primeiro golpe sobre a “cortina de ferro” e provando que as ideias podem ser mais fortes do que o mais poderoso dos exércitos. Foram precisos outros homens extraordinários, para além de Mandela, para percorrer o caminho que levou o mundo inteiro ao Soweto – o lugar improvável que simbolizou durante décadas a resistência a um dos regimes mais odiosos que o século XX conheceu para que, hoje, se transformasse no símbolo da “humanidade comum” que Obama prometeu e que Mandela encarnou.”

Um homem pode mudar o curso da História? Pode, Teresa de Sousa, Publico, 10 Dezembro 2013

O empréstimo e o imposto

“No jantar do Hotel Central que Ega ofereceu ao banqueiro Cohen em 1875 também se discutiu, em homenagem ao principal convidado, a situação financeira de Portugal. Com a sua experiência e sabedoria, Cohen anunciou à mesa que o empréstimo “constituía” uma “fonte de receita tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto”. Os governos, de resto, explicava ele, só se ocupavam em duas coisas, “fazer o empréstimo e cobrar o imposto”. E, como Carlos da Maia lhe objectasse que dessa maneira o país ia “alegremente e lindamente para a bancarrota”, Cohen respondeu com um sorriso consolado: “Num galopezinho muito seguro e muito a direito”. Basta somar, acabou ele, para grande fúria do dr. Medina Carreira quando soube do caso. Mas ninguém no Hotel Central se impressionou. O Ega achava mesmo a bancarrota benéfica ou então uma pequena guerra com a Espanha para espevitar a populaça e a classe média.”

Singularidades portuguesas, Vasco Pulido Valente, Jornal Publico, 6 dezembro 2013