futebol e fado

“Nos últimos dias, o lero-lero dos três “F” voltou em força. Portanto, convém meter os pontos nos “F”: o Estado Novo não promoveu o futebol e o fado como distracções romanas, Amália e Eusébio não foram os gladiadores de um circo de entretenimento destinado a desviar as atenções do povo. O mito dos três “F” é um absurdo. Tal como António-Pedro Vasconcelos explicou há tempos no Sol, a popularidade nacional e internacional de Eusébio e de Amália foi feita “à revelia do regime”. O futebol e o fado foram e são construções populares, fenómenos orgânicos, gostos e afectos que se partilham entre pais e filhos.

O Estado Novo não era um regime fascista como os regimes de Mussolini ou Hitler. Os ditadores de Itália e da Alemanha estavam centrados nas massas, lideravam movimentos de massas. O desporto e o futebol eram pontos-chave nas suas encenações: Mussolini glorificou a selecção italiana, Hitler endeusou os Jogos Olímpicos de Munique de 1936, Leni Riefenstahl cunhou a estética fascista através da glorificação do corpo em Olympia, a maioria celebração pagã depois de Stonehenge. Ora, o regime autoritário de Salazar era o oposto desta ópera encenada. O Estado Novo foi feito contra as movimentações das massas, foi feito contra a “formiga branca” de Lisboa, foi um regime de repressão e não de exaltação. Mussolini dizia “venham para a rua celebrar-me”, Salazar dizia “fiquem em casa, sff”. Neste sentido, o futebol e o fado eram encarados “como aglomeradores de massas, espectáculos de duvidoso gosto popular, potencialmente subversivos e portanto perigosos para a paz social, feita de repressão e apelos ao conformismo” (António-Pedro Vasconcelos).

Não, Salazar não instrumentalizou o futebol e, ao contrário do que se diz, não tinha uma estratégia para manter Eusébio em Portugal. Não conheço em pormenor a conversa Salazar-Eusébio de 1962, mas conheço o episódio de 1967. Nesse ano, Eusébio assinou um contrato com o Inter de Milão. Ou seja, o Benfica estava a vender o Rei sem qualquer intromissão do regime. Problema? A Itália estava em estado de choque com a miserável campanha da sua selecção em 1966 e, em consequência, a Federação Italiana proibiu a entrada de estrangeiros nos clubes italianos. Era preciso formar mais jogadores italianos, diziam.

Para terminar, convém sublinhar que Salazar detestava futebol e fado. Um pormaior, para usar uma palavra de Carlos Pinhão.”

Salazar detestava futebol e fado, Henrique Raposo, Expresso on line, 9 de janeiro de 2014

 

A social-democracia

“Se perguntarem a qualquer pessoa decente qual a principal tarefa da Europa nos próximos anos estou convicto que a resposta será ‘salvar a social-democracia’. Quem diz social-democracia, diz modelo social europeu, personalismo cristão, liberalismo social ou socialismo democrático. Ou seja a democracia de mercado combinada com o Estado Social e fundada nas duas grandes correntes que vêm do século XIX – a doutrina social da Igreja e o socialismo utópico (digo utópico para o separar do leninismo e do chamado socialismo real).

Um desses homens que me parece decente é o presidente do Eurogrupo e ministro das Finanças da Holanda, o socialista Jeroen Dijsselbloem, que afirmou sem reservas ser necessário convencer o eleitorado de que aquilo que está a ser feito por toda a Europa é a forma de voltar ao crescimento económico e que o crescimento económico é essencial para salvar o modelo social europeu. Este socialista reconheceu honestamente que as reformas que tem estado a fazer no seu próprio país, nos setores da habitação, educação ou sistemas de saúde já deviam ter sido feitas, mas estão a ser levadas a cabo todas ao mesmo tempo num período de crise e de elevado desemprego. “É a altura errada para fazer estas reformas, mas não temos alternativa”. E acrescentou que, quando se está no Governo, é-se obrigado a fazer coisas politicamente erradas, na altura menos certa, para prevenir desastres maiores.

Acho que não se pode ser mais claro. Salvar o modelo social europeu tem custos. Quem acha que, com as mudanças do mundo, é possível continuar como antes; quem pensa que tudo o que passamos não é mais do que uma conspiração de uns capitalistas para prejudicar os povos; quem entende que os milhões de pessoas que saíram da pobreza por todo o mundo não provocariam alterações substanciais ao nosso conforto e bem-estar está objetivamente aliado àqueles que, na extrema-esquerda e na extrema-direita tudo fizeram e têm feito para dar cabo do sistema que mais progresso, equidade e justiça trouxe ao mundo – o modelo europeu. Claro que há muito a discutir, mas para começo de conversa temos de nos pôr de acordo com isto. Chamem-se os protagonistas Passos e Seguro, Costa e Rio, Assis e Rangel ou quaisquer outros nomes que lá queiram pôr.”

A social-democracia salva-se? Henrique Monteiro, jornal Expresso on line, 20 de fevereiro de 2014