auto retrato

O’Neill (Alexandre), moreno português,

cabelo asa de corvo; da angústia da cara,

nariguete que sobrepuja de través

a ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a visagem de tal sujeito é o que vês

(omita-se o olho triste e a testa iluminada)

o retrato moral também tem os seus quês

(aqui, uma pequena frase censurada..)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)

e tem a veleidade de o saber fazer

(pois amor não há feito) das maneiras mil

que são a semovente estátua do prazer.

Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se

do que neste soneto sobre si mesmo disse…

 

Alexandre O’Neill, Auto-retrato

Publicada por Pó dos Livros em 12 Dezembro 2013

O liberalismo

“Acompanho o trabalho de Alberto Alesina e Francesco Giavazzi há muitos anos, desde a publicação do livro “O Futuro da Europa – Reforma ou Declínio” (edições 70), que é um bom resumo das maleitas económicas e sociais da velha Europa cercada por potências mais jovens e, como se diz?, empreendedoras. Na resposta à estagnação europeia, Alesina e Giavazzi recomendaram uma série de reformas liberais no mercado de trabalho, na justiça, no sistema de pensões, nas universidades, etc. Com a previsibilidade das cadelinhas de Pavlov, as almas esquerdistas de Itália atacaram o livro, considerando-o “liberal anglo-saxónico”, “direitista”, “um ataque aos trabalhadores”, a litania do costume.

Num contragolpe provavelmente já calculado, Alesina e Giavazzi bateram o ás triunfo na mesa: “O Liberalismo é de Esquerda”. Neste livro, Alesina e Giavazzi vêem o liberalismo como um elemento progressista e, dentro dessa lógica, encaram a velha conversa dos “direitos adquiridos” como uma fonte de reaccionarismo. E, de facto, o lero-lero socialista e sindical criou uma aristocracia de privilegiados que têm objectivamente mais direitos do que os outros. Não, não é apenas funcionalismo público. Os “direitos adquiridos” não protegem os mais fracos no mundo das empresas, porque estão centrados na protecção dos trabalhadores mais velhos do quadro. Ao sacralizar o posto de trabalho do trabalhador antigo, a lógica sindical está a proteger quem está dentro do sistema, os insiders, e não os mais fracos, os outsiders (desempregos e jovens à procura do primeiro emprego). O mesmo se passa com a segurança social. Tal como existe, o sistema só beneficia quem já tem reforma, descurando em absoluto as reformas dos mais novos.  Moral da história de Alesina e Giavazzi? Se está mesmo interessada nos mais desfavorecidos, a esquerda devia abraçar as reformas liberais.

Nunca pensei que a Itália fosse capaz de gerar um político de esquerda dentro da linha Alesina/Giovazzi. Estava enganado. O novo primeiro-minitro italiano, Matteo Renzi, é de centro-esquerda e é liberal. Nos seus primeiros discursos, Renzi já deixou claro que quer mudar o funcionalismo do estado, baixar e simplificar impostos e implodir as leis laborais que desencorajam a contratação de novos trabalhadores. Depois do salto social-democrata da esquerda francesa , temos assim o salto liberal da esquerda italiana. E Portugal? Como sempre, a esquerda portuguesa será a última a mudar. Daqui a uma década ou assim, porque nós é que estamos certos, ora essa, o resto da Europa é que é “neoliberal”, “fascista”, ou talvez “salazarista”. Sim, é isso: do Mar do Norte ao Mediterrâneo, a Europa está a ser varrida por uma onda “salazarista”.”

A Itália descobre que é salazarista, Henrique Raposo, expresso on line, 27 de fevereiro de 2014