Baixar salários

“O economista Octávio Teixeira foi líder parlamentar do PCP anos a fio. Depois abandonou a política activa e voltou ao Banco de Portugal, o seu lugar de origem. É um defensor claro e frontal da saída de Portugal do euro e admite que os partidos de esquerda não são claros e frontais porque temem dizer aos trabalhadores que os salários reais serão reduzidos durante uns tempos. Mas acredita que não existe alternativa na configuração europeia: a chamada competitividade externa ou se faz baixando salários ou desvalorizando moeda. “Não há milagres.””

Octavio Teixeira , jornal ionline, por Ana Sá Lopes, publicado em 1 Mar 2014

Keynes

“Temendo que outros, tal como eu, desconheçam as virtudes do keynogalambismo, permitam-me então explicar esse notável pensamento. Todos nós sabemos aquilo que o keynesianismo é: uma teoria que aconselha a combater as crises com investimento público, adoptando políticas anticíclicas como forma de estimular a economia, e que teve inegável sucesso no debelar da Grande Depressão. Infelizmente, John Maynard Keynes faleceu em 1946, mais de meio século antes de ser introduzida na Europa a moeda única, que nos levou as máquinas de imprimir dinheiro e, com elas, esse instrumento tão apreciado pelos políticos chamado “inflação”. Ora, é aqui que entra o keynogalambismo.

O keynogalambismo consiste em permanecer firmemente keynesiano mesmo sem ter dinheiro para investir. Como? Utilizando um poderoso instrumento económico para combater a crise, que Keynes, por manifesta desatenção, se esqueceu de citar na Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda: gritar imenso com os outros por estarem a ser maus para nós. Através de numerosas queixas, esgares e manifestos, o keynogalambismo propõe continuar a investir à bruta, mesmo que em caixa só já restem 300 milhões de euros (números de Durão Barroso).

A lógica interna do keynogalambismo é esta: 1) pedimos dinheiro, porque precisamos de nos endividar; 2) não pagamos esse dinheiro, porque nos endividámos; 3) protestamos, por não nos deixarem endividar mais. Vale a pena dar a palavra ao autor, que explica isto admiravelmente: “O problema da nossa dívida não é o facto de ser elevada, mas sim o facto de que, no contexto do Tratado Orçamental, e quando pagamos cerca de 4,5% do PIB em juros, a única maneira de cumprir as nossas obrigações europeias sem voltar a cortar salários, pensões, Saúde, Educação e investimento público é reestruturar a dívida.” Ou seja, o problema da nossa dívida não é o facto de ser elevada, mas o facto de não a conseguirmos pagar. Brilhante.”

John Maynard Galamba, João Miguel Tavares , jornal Publico, 01 Abril 2014

Falta de rumo

“Depois de, pelo menos, 30 anos de guerra civil (1821-1851), Portugal conseguiu estabelecer um regime liberal, que durou à volta de 40 anos. No fim do século XX, apesar de algumas tentativas autoritárias, Portugal também conseguiu estabelecer uma democracia “à europeia”, com dinheiro emprestado. Não admira que muita gente hoje se comece a preocupar com o futuro político do país.

Será possível com os 20 ou 30 anos de “austeridade”, ou seja, de empobrecimento, que do alto da sua sapiência o dr. Cavaco nos prometeu, conservar um regime apesar de tudo benigno e tolerável? Ou, se uma tradição já velha prevalecer, virá agora um período de violência e desordem, a que uma espécie qualquer de autoritarismo tarde ou cedo acabará por pôr fim perante o alívio e o júbilo dos portugueses?

A dúvida é lógica e até prudente. Tanto mais que a “Europa” dos fundadores, que foi a esperança e o sonho de três gerações de ingénuos, manifestamente se desagrega e abandona os princípios que desde o começo tinham sido os seus: os direitos do homem, o Estado Social e a supremacia da lei. Como iremos nós, sem a “solidariedade” e o apoio de Bruxelas, resistir às forças que de dentro e de fora promovem ou assanham o nosso descontentamento geral e cada vez mais dividem o país? Não existem hábitos de tolerância e de compromisso, não há instituições que inspirem o respeito da maioria da população, não há uma classe dirigente respeitável e respeitada. Nem sequer há uma razão maior para um patriotismo indiscutível e partilhado. Sem nenhum fundamento sólido, Portugal anda de facto à mercê das circunstâncias.”

A nossa democracia, Vasco Pulido Valente, Publico, 16 Março 2014

co-adopção

“Com a vossa proposta de um referendo sobre a co-adopção e a adopção de crianças por casais de pessoas do mesmo sexo, vocês desceram a um nível inimaginável, ao sujeitarem a plebiscito o exercício de direitos humanos. A democracia não deve referendar direitos humanos de minorias, porque esta não se pode confundir com o absolutismo das maiorias. Porque a linha que separa a democracia do totalitarismo é ténue – é por isso que a democracia não dispensa a mediação dos seus representantes – e é por isso que historicamente as leis que garantem direitos, liberdade e garantias andam à frente da sociedade. Foi assim com a abolição da escravatura, com o direito de voto das mulheres, com a instituição do casamento civil, com a autorização dos casamentos inter-raciais, com o instituto jurídico do divórcio, com o alargamento de celebração de contratos de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Estes direitos talvez ainda hoje não existissem se sobre eles tivessem sido feitos plebiscitos.”

Carta aberta ao presidente da JSD e seus compagnons de route, Carlos Reis dos Santos, Publico, 18 Janeiro 2014

Mitos portugueses

“O dono da Sonae, numa frase carregada de infelicidade, não porque seja politicamente incorreta, mas por ser falsa, veio dizer que a produtividade dos portugueses é 1/3 das dos alemães e que só quando nós triplicarmos essa produtividade poderemos aspirar a salários semelhantes aos alemães.

A frase de Belmiro baseia-se no mito de que os trabalhadores têm baixa produtividade por razões que estarão diretamente ao seu alcance alterar. Os sindicatos e a esquerda em geral indignaram-se, que é, ultimamente, o que têm sabido fazer melhor. Analistas (veja-se Nicolau Santos aqui) levantaram alguns problemas pertinentes – a estrutura do nosso empresariado, o facto de empresas bem geridas em Portugal (a começar por algumas alemãs) terem maior produtividade em por cá do na própria Alemanha, demonstrando que a maioria das razões para a nossa baixa produtividade não tem a ver propriamente com os trabalhadores.

Gostaria de pegar, justamente por aqui, para dar umas achegas históricas ao que o meu camarada (calma, os jornalistas, como os militares, tratam-se por camaradas sem conotações políticas) escreveu.

Portugal foi sempre um país miserável. O passado de ouro é um mito simultaneamente da direita e da esquerda. O grande país dos Descobrimentos, meus caros, é pouco mais do que uma fraude. Os portugueses emigravam em massa desde que os Descobrimentos começaram. Começou com os algarvios para a Madeira e continuou com o país a ir para a Índia. Veja-se esta descrição de um historiador antigo: “O que tornava da Índia rico passeava na Rua Nova como num estado oriental. Precediam-no dois lacaios, seguidos por um terceiro com o chapéu de plumas e fivelas de brilhantes, um quarto com o capote e, em roda da mula, preciosa de jaezes e luzidia, um quinto segurava a rédea, um sexto ia ao estribo, amparando o sapato de seda, um sétimo levava a escova para afastar as moscas e varrer o pó, um oitavo a toalha de linho para limpar o suor à besta, à porta da Igreja enquanto o amo ouvia missa. Eram ao todo oito escravos pretos, vestidos de fardas de cores agaloadas de ouro ou prata”.

Isto era um português. Não um nobre. Um homem que emigrara e voltara rico. Investira nalguma indústria, nalgum comércio, em algo reprodutivo? Não. Investira em ostentar. Na altura dos Descobrimentos havia dinheiro, os preços dos géneros essenciais em Lisboa triplicaram, ao mesmo tempo que pobres morriam de fome a agricultura fora abandonada em nome da possibilidade da fortuna fácil (embora uma grande fatia dos que emigravam não voltassem, nem ricos nem pobres). Os escravos eram a oitava parte da população da capital; mas em Évora eram mais do que os brancos. Os portugueses viviam – diz o mesmo cronista – indolente, luxuosa e miseravelmente.

No ciclo do ouro do Brasil, em Minas Gerais, todos concordam que entravam em Portugal muitos milhões. O Convento de Mafra e o sino, que foi a obsessão de D. João V levaram uma boa parte. Mas estava pronto em 18 anos. O aqueduto, que era essencial ao abastecimento de água, depois de muito roubo nas concessões, ficou pronto ao fim de 103 anos. Diz Oliveira Martins (séc. XIX) sobre a Patriarcal de Lisboa, outro local onde se gastou boa parte dos proveitos: “Essa ópera (sic o historiador considerava aquilo uma ópera) contava quase 400 figurantes. Afora o patriarca, tinha 24 principais, 72 prelados, 20 cónegos, 73 beneficiados, mais de 30 mestres-de-cerimónias, acólitos, capelães. E, além disso, 130 cantores e músicos”.

Os ‘brasileiros’ torna-viagem que fizeram? Alguns investiram, é certo, mas a maioria ostentou. Campeou sempre a corrupção, a venda de lugares públicos. A decadência era tal que o próprio Oliveira Martins apelava a uma União Ibérica e Eça de Queirós coloca uma personagem a dizer: “Portugal não precisa de reformas, Portugal o que precisa é a invasão espanhola”.

Não vos faz lembrar nada. E ainda não chegámos à balbúrdia que foi a República ao atraso rural dos “pobretes mas alegretes” de Salazar e aos fundos europeus.

A nossa baixa produtividade é histórica. Nunca existiu. Não é culpa dos trabalhadores que sempre esperaram o golpe de sorte, nem dos empresários, cuja maioria, mal se vê com algum dinheiro, gosta de mostrar o Ferrari, um casarão e uma amante cara (e, neste aspeto, Belmiro é, como notou Nicolau Santos, uma enorme exceção). Já houve mobilidade social, ricos ficaram pobres, pobres ficaram podres de ricos e esta incapacidade de produzir, esta vontade de ostentar, de viver do que é efémero, do que não se tem, é uma constante. Porquê? Ora aí está um belo tema de investigação para o qual, pessoalmente, não estou habilitado.

PS: A maioria das citações de historiadores são retiradas de “Portugal a Flor e a Foice” do escritor português radicado na Holanda José Rentes de Carvalho, publicado logo após o 25 de Abril, em holandês, e que brevemente será publicado em português.”

Belmiro e os mitos da esquerda e da direita, Henrique Monteiro, Expresso, 9 março 2014