A nossa realidade

“Simples, nós não vemos a realidade tal como ela existe. Não existe realidade objectiva, ou melhor, ela existe mas não é percepcionada. Nós só vemos o que queremos ver, só vemos os factos que as nossas narrativas exigem ver.“
“Febre do Apocalipse”, Henrique Raposo, Expresso, revista E, pág. 68, 23 maio 2015

A nossa verdade

“O economista austríaco Joseph Schumpeter defendia que qualquer análise económica é precedida por um processo cognitivo, que envolve decidir que determinado fenómeno merece a nossa atenção e análise. Acto que é, desde logo, ideológico, uma vez que “a forma como vemos as coisas dificilmente se pode distinguir da forma como as queremos ver.””
“Os números da nossa vida”, Nuno Aguiar, A Esfera dos Livros, pág. 24, 1ª edição, Maio 2015

A salvação da Grécia

“O drama financeiro da Grécia dura há cinco anos por uma razão: a teimosa recusa dos nossos credores que não aceitam oferecer o essencial alívio da dívida.”
Yanis Varoufakis, The Guardian, 10 de Julho de 2015

“Há pontos de bifurcação na História: quando se chega lá tem de se escolher uma de duas ou mais trajectórias, sabendo-se que já não se volta para onde se esteve. Mas também há esquinas na História: quando se chega lá não se sabe o que se vai ver depois de dobrar a esquina, será uma avenida, uma praça, uma rua estreita ou um beco?
A lógica de Varoufakis conduziu até uma esquina e ninguém sabe o que se vai ver a seguir. Há um ensinamento a retirar deste fracasso: não se deve entregar o poder a um académico. Quem tem modelos (ou ideologias, ou crenças religiosas) já tem a resposta ainda antes de saber qual é a pergunta. Em política só se tem a resposta depois de ouvir a pergunta. O que tem de se fazer é identificar a linha de possibilidades em função dos vectores de força que caracterizam o campo de acção em que a decisão política vai incidir, em direcção a um objectivo.
Varoufakis (com a companhia de muitos) errou na identificação do campo de acção e do sistema de vectores de forças. A questão não está no perdão da dívida (que é óbvio que não poderá ser paga, como já aconteceu com os anteriores perdões e descontos), mas sim na neutralização dos factores que geraram e continuam a gerar a dívida. A questão não está no que querem os eleitores gregos, mas sim no que é o campo de possibilidades numa área monetária comum, em que todos os eleitorados são partes interessadas. O euro oferece à Grécia muito mais do que poderá ter pelos seus meios próprios, e nesse benefício inclui-se a resolução da sua dívida no sistema monetário europeu. É o que se verá depois de dobrar esta esquina da História.”

Uma esquina na História, Joaquim Aguiar, Jornal de Negócios, 13 julho 2015

bloqueios

“O que bloqueia Portugal é a dificuldade das estruturas económicas se adaptarem a um novo contexto de competição internacional.”
António Costa citado por Daniel Bessa, Expresso, 25 julho 2015

Jorge Sampaio

“Os portugueses são um povo bravo, generoso e resiliente.
São tolerantes, de mente aberta e com espírito de cooperação.”
Jorge Sampaio, ONU Nova Iorque, Premio Nelson Mandela, 24 Julho 2015

A Grécia?

“Comentadores de vária espécie e pena falam da Grécia como se a Grécia fosse um país normal. Não é: é um país falhado. Basta pensar na geografia: 6000 ilhas (280 meio habitadas), comunicações continentais quase impossíveis, nenhuma fronteira com um Estado desenvolvido e ocidental.
No princípio do século XIX, a Inglaterra inventou a Grécia para consolidar o seu domínio no Mediterrâneo Oriental (e, de caminho, defender a rota para a Índia). Antes do canal (de Suez) ninguém queria saber daquele pedaço pedregoso do império turco e depois da independência da Índia ninguém queria gastar um vintém numa posição inútil. No célebre papel das percentagens que Churchill entregou a Estaline, lá estava: “Grécia – 90 por cento para a Inglaterra, dez por cento para a URSS”. Mas bastaram oito ou nove anos para a Inglaterra, exausta, vender a sua quota-parte a Washington, em nome do anticomunismo.
Entretanto, a Grécia passara pela ocupação italiana e alemã, por uma guerra civil entre estalinistas (sem o beneplácito de Estaline) e democratas, por indescritos governos, que tentaram copiar a organização política do Ocidente, e por uma ditadura militar, com o extraordinário coronel Patakos, que tinha uma cruzada pessoal contra a mini-saia. Quando isso passou, os novos senhores da América e da Europa não se preocuparam em deixar o mínimo de ordem atrás de si. As prevaricações da Grécia (por exemplo, aldrabar as contas) eram vistas com condescendência, e a importação para uma economia que não funcionava, nem podia funcionar, dos mais subtis requintes do Estado social como sinais de modernidade.
Esta última crise, com o seu mantra da “solidariedade europeia” e do “berço da civilização”, esconde o essencial. Sucede que na Grécia não existiu um “berço” da civilização moderna; e que a Europa sempre mostrou o seu carinho pela Grécia (como antes, de resto, os romanos) deitando a mão a tudo o que conseguiu apanhar. Se Bruxelas quisesse fazer alguma coisa por aquela triste terra, em vez de exibir os seus sentimentos democráticos, devia ajudar a construir um Estado capaz de reger e ordenar o caos reinante – uma espécie de colonização sem o nome e com dinheiro. Só que os tempos mudaram e a sr.ª Lagarde quer malcriadamente “adultos” para falar, como se não lhe chegasse a criança que tem no Eliseu. Quanto a nós, talvez convenha imaginar Portugal com 6000 ilhas, 280 habitadas por gente a reclamar um “subsídio de periferia”.”

A Grécia? Vasco Pulido Valente, Publico, 26 junho 2015