O euro foi um erro

“(…) recentemente, em entrevista ao suplemento “Economia” do Expresso, Angus Deaton, Prémio Nobel da Economia em 2015, afirma peremptoriamente que “o euro foi um erro terrível”, salientando que “muita gente das classes médias tem vindo a passar colectivamente um mau bocado” e reconhecendo que “o euro acabou por funcional mal, com consequências que, não tendo sido intencionais, certamente foram entrevistas por alguns”. O que é exacto.

De facto, no final do século XX, Paul Samuelson, considerado por muitos fundador da economia moderna – e prémio Nobel da Economia em 1970 – afirmou que a criação do euro era “o novo Titanic da experimentação económica” e, antecipando as consequências, aconselhava: “Rezem para que no novo século os livros de história económica não relembrem a experiência do euro como um erro trágico”. Infelizmente, a tragédia está à vista.

Também o muito controverso Milton Friedman, prémio Nobel da Economia em 1976, escreveu em 1999: “O que mais me perturba é que os membros do euro tenham atirado fora as suas chaves. Assim que o euro substituir fisicamente as moedas nacionais, como é que se sai desse mundo? Será uma crise imensa”. E avisava: “Os defeitos do euro levarão algum tempo a aparecer. Nada surge rapidamente nessa área. (…) O sistema político dificilmente reagirá com rapidez bastante (a uma recessão) para acabar com o euro. Por isso, julgo que seria muito conveniente pensar seriamente na elaboração de uma forma de sair da camisa-de-forças do euro depois de 2002”. Ninguém pensou. E “o euro devia ser abandonado antes de 1 de Janeiro de 2002”. Não foi.

Em Portugal, o economista João Ferreira do Amaral não estava, como se vê, completamente isolado ao afirmar, no princípio do século XXI, que, “para Portugal, a permanência na moeda única constituirá um obstáculo permanente ao nosso desenvolvimento”. E disse mais, no livro que publicou em 2002, Contra o Centralismo Europeu – Um Manifesto Autonomista: “A moeda única, quer na fase de aproximação através da política de convergência nominal, quer na fase de realização, desde 1999, tem prejudicado fortemente a economia portuguesa. Fez-lhe perder mais de 20 por cento da sua competitividade externa e fez descer as taxas de juro numa altura em que a situação da economia portuguesa aconselhava que subissem. O resultado é um enorme endividamento da nossa economia em relação ao exterior (cresceu cerca de 40 por cento do PIB nos últimos seis anos) e um enorme endividamento interno das famílias (que atinge cerca de 95 por cento do rendimento disponível). Tudo isto acompanhado por um crescimento económico muito baixo (cerca de 2,5 por cento entre 1991 e 2002) e um profundo desequilíbrio entre bens transaccionáveis e não transaccionáveis”. De então para cá, tudo piorou ainda mais.”

Euro, o Titanic do bloco central, Alfredo Barroso, Publico, 25 Julho 2016

A Europa e o futuro

“Qual é o problema maior com que se confronta hoje a sociedade portuguesa?

É a esperança no futuro. Neste momento, somos uma sociedade que vive um sentimento de pressão, de cerco, de desconfiança em relação ao futuro. Não é uma desconfiança de uns em relação a outros, que precede as guerras civis. Em muitos aspectos até temos um diálogo social mais próximo. O que acontece é que nos sentimos expropriados dos instrumentos de construção do futuro. Isso nota-se, por exemplo, no grau de investimento, que não tem apenas que ver com o facto de as empresas estarem muito endividadas. Tem que ver com a ausência de confiança. Para investir, as pessoas precisam de acreditar que daqui a cinco anos temos a mesma moeda, temos uma união monetária, que as coisas continuam. A incerteza é uma sombra terrível que paralisa a vida do país.

O euro foi um erro para Portugal?

Se fosse possível voltar atrás, não devíamos ter entrado no euro. Mas agora é mais fácil perceber isso porque quando entrámos, a história que nos contaram não era esta, era que seria o primeiro passo para a união política. Por isso é que os federalistas, como eu, aceitaram a moeda única. Pensaram que havia riscos, mas havia uma forte possibilidade de a dinâmica ser essa, nomeadamente se a Alemanha continuasse interessada. Só que a Alemanha, depois de Helmut Kohl, nunca mais foi federalista. E não é só Merkel. Gerhard Schröder também não era federalista. Mas considerando que não devíamos ter entrado, qual é agora a coerência de achar que não devemos sair? É a coerência da realidade. É irreversível. A Zona Euro foi construída de forma muito atabalhoada, mas foi construída, parcialmente, por gente que a colocou como ponto de partida para outra coisa que vinha a seguir. Não há mecanismo de saída, só se sai pela janela.

E o preço a pagar?

É um preço brutal. Neste momento, o euro é uma força de coesão mas é, ao mesmo tempo, tóxico. Mantém-nos coesos porque até o mais humilde cidadão grego quer o euro, mas uma moeda não faz uma união. Se continuarmos assim, vamos ter os ataques das forças anti-sistema, que são geradas pelas forças do sistema. As atitudes de Schäuble e de Dijsselbloem são o combustível do populismo. São elas que estão a dar energia às forças desagregadoras.

O Brexit ensinou-nos a importância de ter moeda própria. […] Se fosse possível voltar atrás, não devíamos ter entrado no euro.

Podemos estar perante uma equação impossível? Uma ruptura poderá conduzir-nos ao conflito?

Pode haver uma guerra europeia. Não como a de 14-18 ou a de 39-45, mas uso da violência ou ameaça de uso da violência. A desagregação pode começar num grande país como Itália, França ou Alemanha. Imaginemos que a extrema-direita ganhava na Alemanha. Já há vozes a defenderem o rearmamento alemão, a dizer que a Alemanha não pode ser uma potência com pés de barro. Rearmar significa armas nucleares. Se isso algum dia acontecer, os vencedores da II Guerra vão unir-se contra, mas será um facto consumado. Numa situação em que Marine Le Pen seja a interlocutora de Merkel, não vai hesitar em lembrar que França é uma potência nuclear. Estamos a caminhar para uma Europa esfarelada. Portugal manterá a sua integralidade, mas Portugal sempre foi um milagre a esse nível. Espanha vai partir-se em três ou quatro. A Bélgica vai desaparecer, talvez de forma violenta. França talvez se mantenha. A Grã-Bretanha já está a esfarelar-se. Tenho muitas dúvidas de que a Alemanha se mantenha como está, julgo que a Baviera é capaz de se separar. A Itália também se pode dividir entre o Norte e o Sul. Isto para Putin é fantástico porque a Rússia se mantém como a grande potência.”

Viriato Soromenho-Marques, entrevista Jornal de Negócios, 15 Julho 2016

Para que servem os bancos?

“Na entrevista ao semanário Expresso de 2 de Julho, o chefe de missão do FMI, Subir Lall, teve uma frase espantosa, muito reveladora dos nossos problemas. “Os bancos, de forma geral, não se focam no lucro. Parecem estar muito mais concentrados numa actividade bancária assente nas relações.”
Esta afirmação manifesta uma das questões centrais da crise. Primeiro, e apesar da atenção às finanças públicas, que estão muito mal, a nossa maior dificuldade situa-se na economia produtiva, ainda mais endividada do que o Estado e sem crescimento válido desde 2001. O sector bancário, local onde os dois dramas convergem, constitui um dos elementos mais combalidos e perigosos da nossa conjuntura. Demorou tempo, mas finalmente hoje todos entendem isto.
De forma arguta, Lall identifica uma das causas decisivas: os bancos não se focam na rentabilidade. E explica: “Centram-se nos clientes prime, (…) a banca portuguesa parece assentar muito nas garantias pessoais.”
Uma breve inspecção às recentes catástrofes financeiras mostra essa verdade. O caso BES é um exemplo extremo de “clientes prime”, em particular familiares, sem rentabilidade. A obscena luta pelo poder no BCP, em 2007, foi um embate de relações e compadres. Os problemas que assombram o Banif, o Montepio e a CGD, entre outros, resultam sobretudo da prioridade dada às influências, sacrificando a rentabilidade. Em todos estes casos foi um conjunto de poderosos (clientes e accionistas de referência, partidos, ministérios, interesses ou sectores) que recebeu empréstimos com base em garantias pessoais e pouca atenção ao lucro. Enquanto a bolha enchia, tudo parecia fácil; assim que o inchaço parou, desabou como um castelo de cartas.
Mesmo agora, que a loucura terminou e a realidade geme diariamente, o enviesamento permanece.”

João César das Neves, Uma Banca Bancaria, Diário de Noticias, 14 de Julho de 2016

Porque se vota mal?

“Porque é que as pessoas escolhem erradamente? As explicações oferecidas por psicólogos e politólogos são muitas, mas, em última análise, todas reenviam à passionalidade inerente às decisões políticas.

Eu sei que a questão pode parecer pueril ou coisas ainda piores, mas às vezes convém correr o risco de uma certa ingenuidade. Porque é que, em situações políticas em que a decisão parece fácil e o número de bons argumentos em favor de uma opção aparenta ser respeitável, ou mais do que isso, muita gente, e às vezes a maioria, opta pela decisão com menos e piores argumentos a seu favor? Há muitas situações assim, embora não sejam, com toda a probabilidade, as mais habituais. A questão pode, de facto, padecer de alguma ingenuidade, mas não é certamente ociosa.

Claro que desde Platão vários génios, espíritos laboriosos e pessoas comuns produziram incalculáveis soluções teóricas para o problema. E, como de costume, há acerto aqui e ali. Duas teorias dominam o panorama. A primeira, que comporta múltiplas versões, é a de que o erro (chamemos-lhe assim) é fruto da ignorância. De Platão ao marxismo (o “ópio do povo”, a “ideologia”, etc.), a tese sempre gozou de muitos adeptos. A segunda diz-nos que as questões políticas não são, pura e simplesmente, susceptíveis de apreciações deste tipo. De outra maneira: a questão encontra-se mal colocada, não é legítimo falar, em matéria de decisões políticas, de verdade e de erro. A questão não é de ignorância. Protágoras dizia que a arte política pertence a todos (não há especialistas, decisores profissionais da justeza política) e Weber falava da “guerra dos deuses” a propósito do conflito dos valores políticos.

A opinião erudita, embora não, por razões óbvias, a política militante, inclina-se, hoje em dia, para a segunda doutrina. E é verdade que, em tese geral, ela parece mais apreciável. Sobretudo se partilharmos uma visão fortemente idealizada da democracia grega, como aquela que é apresentada por Hannah Arendt.(…)”

Paulo Tunhas, Observador, 07 Julho 2016