Populismos

“Tal como a esquerda Tsipras, a direita Salvini recuou perante as regras da União Europeia. Salvini apresentou um orçamento que seguia o pensamento mágico e, em consequência, teve de recuar. Julgo que se fala pouco desta matéria concreta da política: os populistas são parra sem uva. Não têm os meios reais para entregar resultados concretos. A concretização lógica dos seus desejos (saída do UE, saída do euro) implicaria sempre um empobrecimento abrupto das populações, algo que eles não têm coragem de defender junto do povo.

O populismo quer uma coisa e o seu contrário, quer a liberdade em relação à UE e quer a prosperidade garantida pela UE e pelo euro. Não tem a coragem política para o dramatismo. Meus caros, sair da UE implica a curto-prazo um corte duro que temos de suportar em nome do futuro! O Brexit é o exemplo perfeito. Os brexiters viveram sempre no pensamento mágico: ter os benefícios da UE sem fazer parte da UE. É essa evidente fraude que está a ser desfeita a cada dia que passa. É por isso que o Brexit não avança quando deixa a ilusão e entra na realidade. A outro nível, os nacionalismos da Polónia e da Hungria foram contestados pelos tribunais e instâncias europeias e, além disso, a oposição polaca e húngara também se fizeram ouvir. Ademais, Macron ainda tem quatro anos de mandato e o eurobarómetro está no máximo positivo dos últimos vinte anos. Nos EUA, o sistema continua a resistir a Trump.

Onde é que eu quero chegar? Fareed Zakaria, o Aron do nosso tempo, tem razão: já é tempo de deixarmos de ver a realidade pelos twitters dos populistas. Não, não se trata de otimismo ingénuo. Sim, os perigos para a ordem construída nas últimas décadas são claros e estão identificados. Sucede porém que a resposta é possível e a vitória de quem defende a ordem ocidental criada desde 1945 ainda é mais provável do que a vitória populista, até porque o populismo não sai do excel do pensamento mágico.”

Henrique Raposo, Expresso, 08 Janeiro 2019