Trump e o equívoco libertário

“Os libertários ou anarco-capitalistas julgam que a globalização é apenas um processo económico auto-suficiente, pensam que as trocas do mercado podem ser operados num vácuo apolítico, advogam que a mão invisível não precisa da mão de ferro dos estados. Se seguirmos a linha liberal clássica, isto é, se afirmarmos que o mercado só é possível a jusante devido à presença do estado de direito a montante, ficamos debaixo de fogo deste setor libertário que se tornou na ortodoxia de muita direita. Este anarquismo capitalista bloqueia na palavra “estado” da mesma forma que a esquerda marxista bloqueia na palavra “mercado”; os libertários diabolizam a palavra “estado” mesmo quando estamos a falar de estados liberais e republicanos, mesmo quando estamos a falar de alianças kantianas entre estados liberais.

Nesta lógica apolítica e muitas vezes amoral (pois apenas respeita a força demonstrada no mercado), toda a aparelhagem política e diplomática que sustenta a globalização, a começar na NATO e nas restantes alianças militares americanas, é considerada um absurdo arqueológico. Se a globalização é um processo meramente económica entre empresários e consumidores, então não depende de acordos políticos entre estados, então a política, a diplomacia e a estratégia são coisas do passado. Trump olha para o mundo através deste equívoco libertário ou anarco-capitalista.

Como julga que a globalização é pura economia entre mercados sem qualquer interferência da política entre estados, sobretudo entre estados liberais (as “democracias”), Trump olha para a ordem internacional com a fúria anarquista do anarco-capitalista que celebra 1989 como o velho marxista celebrava 1917. Em resultado, olha para a NATO e para as alianças com as democracias asiáticas não como pilares da ordem internacional, mas sim como meras despesas. Donde a atitude de merceeiro: como não percebe que as alianças têm um valor político intrínseco (garantem paz e a previsibilidade conhecida por “globalização”), Trump encara as outras democracias não como aliadas, mas como clientes que têm de pagar mais pelo serviço prestado pelos EUA. Destruir Trump também implica destruir o primado do anarco-capitalismo no coração da direita americana e, por arrasto, na direita ocidental.”

Henrique Raposo, Expresso Diário, 18 Setembro 2018